segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Um filme importante e um idiota

Tenho visto pilhas de filmes que baixo da internet. Tenho sempre vontade de comentá-los, e uma hora dessas tomo coragem. Ocorre que um monte deles concorreu ontem ao Globo de Ouro, que sofri pra ver no TNT por causa de um Sr. Rubens Ewald Filho, o "apresentador".



O que é Rubens Ewald Filho, vocês conhecem? No prêmio dado a Steven Spielberg pelo conjunto da obra apareciam, como de praxe, imagens dos filmes que dirigiu ou produziu. Lento, titubeante, REF mal conseguia acompanhar. Quando mostraram o cultuado Amistad, de 1997, um dos melhores de Spilberg, diretor que volta e meia solta um filme sobre a liberdade, apareceu Anthony Hopkins, magnífico no papel do diplomata John Quincy Adams (1767-1848), sexto presidente dos EUA (de 1825 a 1829) que, já no ostracismo (dado fantasioso do filme, porque foi deputado até o fim da vida), aceita defender na Suprema Corte americana um grupo de africanos escravizados que se rebela a bordo da nau espanhola Amistad.

Sabem qual foi a frase do REF? "Filme pouco conhecido... Anthony Hopkins no papel de um liberal que defende os direitos dos negros..."

Meu deus... esse filme é um cult! E "liberal que defende os direitos dos negros"...??? JQA, filho do segundo presidente americano, John Adams (mandato: 1797–1801), um dos "Founding Fathers" da república, era do Norte que, pela formação histórica, combatia a escravidão do Sul. Nem por isso os Founding Fathers tiveram peito de incluir a abolição da escravatura na Declaração de Independência!

Fiquei tão injuriada que fui pro Google e pra Wiki. O pai dele até tentou enfiar a abolição na Declaração da Independência, não conseguiu. No poder criou os famigerados Alien and Sedition Acts de 1798: sob o pretexto de "proteger cidadãos americanos de potências inimigas" e "impedir ataques sediciosos de estrangeiros" que lá viviam, perseguiu e prendeu críticos do governo. Que "liberal"...

Muitos desses atos foram derrubados, mas um deles – Alien Enemies Act – vigora até hoje e é usado e abusado em tempos bélicos, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando milhares de nipo-americanos foram jogados em campos de concentração em território dos EUA! E ainda sustenta perseguições injustificadas a minorias, com ajuda do mais famigerado ainda Patriot Act de George W. Bush.

Bem, o que o filho dele teve a ver com isso? O seguinte: naquele julgamento histórico, que, sim, reforçou o movimento abolicionista, o que John Quincy Adams fez foi provar que os africanos amotinados não eram propriedade da Espanha, como queriam os esbirros da rainha Isabel, na época com 11 aninhos. Claro que nas alegações finais (que duraram sete horas!) ele usou a mais bela retórica – pelo menos é o que diz o filme (traduzo trechos adiante a partir das citações do site IMDb).

Mas não era um "liberal" defendendo "os direitos dos negros", pô! Era um advogado rechaçando a escravidão que, convenhamos, tirando uns rednecks malucos do Mississipi e adjacências ou bandidos, até conservadores abominam! O motim ocorreu em 1839, o julgamento foi em 1840, a sentença favorável aos africanos saiu em 1841 e o grupo só regressou à África em 1842. O movimento pelos direitos civis ocorreria 120 anos depois, nos anos 1960! Há que ter um mínimo de conhecimento histórico quando se comenta algo!

Antes da abolição da escravidão pela 13ª Emenda à Constituição (6/12/1865), que só viria depois da vitória do Norte sobre o Sul na Guerra Civil Americana (1861–1865), houve uma série de leis que amenizavam a atrocidade. Como aqui, só que bem antes, já que a nossa Lei Áurea chegou tardia, em 1888, para nossa vergonha!

Continua aqui, com alguns excelentes diálogos do filme.

5 comentários:

Ruy disse...

Amistad é um filmaço-aço-aço!

mari disse...

Pois é... e o imbecil não sabe! Mas se ele vive disso tinha que saber!

ahf disse...

Ótimo o seu registro. Também vi tanto o programa do Globo de Ouro como, antes, o filme "Amistad". O REF podia ainda lembrar que o ator premiado em mini-série foi o que fez o papel-título de "John Adams". E a atriz a que fez o papel de Abigail Adams, mulher dele e mãe de John Quincy. Mas como consertar tanta ignorância? O sujeito não sabia nada disso.

Bruno disse...

Não aguentei nem os primeiros minutos de tradução e comentários e deixei o som original em inglês. Na Sky, é só apertar o botão + e mudar o idioma. Fica a dica para o Oscar. :)

mari disse...

Puxa, obrigada, às vezes me vejo como uma chata (que sou mesmo) sem "senso de noção".

Esqueci da tecla "Opções" na Net, em que vc tira o som local!!!!!!!!!!!!

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