Mostrando postagens com marcador Oriente Médio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oriente Médio. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de março de 2011

A Líbia, o Ocidente e um nó no meu cérebro

(via @TomasRosaBueno) 
Não sei o que pensar em relação à Líbia. A zona de exclusão aérea foi aprovada pela ONU pouco antes de Kadafi invadir Benghazi "sem dó nem piedade". Legal. Marco Aurelio (o meu filho, não o ministro) tinha postado lá no Facebook o seguinte: "A cavalaria não vai chegar a tempo. Não há cavalaria." E não é que rolou a cavalaria? Kadafi recuou, não vai mais invadir (só com a polícia e forças antiterroristas, ai ai...). Aí o Marco posta de novo: "Cada circunstância tem a cavalaria que merece." Houve festa em Benghazi, ok, mas os rebeldes querem ajuda externa? Os invasores ocidentais vão negociar a permanência do Kadafi? Kadafi vai enlouquecer de vez e partir pro banho de sangue? Vai ter guerra?  

Caramba, a situação líbia é imprevisível!

***

O efeito dominó que vem da Líbia 

Uma eventual vitória de Kadafi contra os rebeldes líbios pode aniquilar o vírus da democracia no mundo árabe

Jackson Diehl

The Washington Post/O Estado de S.Paulo, 16/3/2011 

Desde que o ambulante tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo, em janeiro, o levante árabe revelou-se um vírus mutante. É por isso que Muamar Kadafi tornou-se tão importante.

Inicialmente, Bouazizi não inspirou protestos, apenas outros episódios de autoimolação na Argélia e no Egito. Em seguida, o contágio. Na Tunísia, surgiu um movimento secular sob a bandeira da democracia. A classe média do Egito passou a defender a mesma causa. Exércitos aliados dos EUA - na Tunísia, no Egito e no Bahrein - decidiram, um após o outro, não disparar contra o povo e fortaleceram o pacifismo defendido pelos americanos.

Agora, Kadafi, mais uma vez, modificou a natureza do vírus. Sua insanidade fez com que, durante dezenas de anos, a Líbia permanecesse às margens da vida política árabe. A tática da terra arrasada usada por ele, porém, não só deteve como produziu o mesmo efeito no levante pela democracia árabe. Se ele sobreviver, o vírus da repressão, do derramamento de sangue e da autocracia inflexível poderá refluir em toda a região.

Talvez isto já esteja ocorrendo. Nas duas últimas semanas, o Egito registrou perigosos surtos de violência e confrontos sectários entre muçulmanos e cristãos. Por duas vezes, as forças de segurança do Iêmen atacaram a multidão na capital Sanaa, com munição de verdade, e violentos choques foram registrados entre forças de segurança e manifestantes no Bahrein.

Os rebeldes pró-democracia chegaram a um impasse. Argélia e Marrocos silenciaram. Na sexta-feira, na Arábia Saudita, o "Dia da Ira" anunciado pelo Facebook não produziu resultado significativo. E não há sinais de rebelião no país cuja ditadura compete com a de Kadafi em crueldade: a Síria.

Indubitavelmente, no Egito, as forças liberais continuam fortes. Embora ainda desorganizado, o movimento liderado pelos jovens derrubou o primeiro-ministro, o gabinete deixado por Hosni Mubarak e destruiu o quartel-general de sua polícia secreta. Duas personalidades de prestígio, o ex-secretário da Liga Árabe, general Amr Moussa, e o ex-inspetor nuclear da ONU, Mohamed ElBaradei, apresentaram-se como candidatos à presidência oferecendo a perspectiva de uma disputa autenticamente democrática.

Alguns egípcios, porém, acham que o país está próximo do colapso. "Talvez nunca cheguemos a realizar as eleições presidenciais", disse uma fonte bem informada. A economia, afirmou, continua estagnada. O governo ficará em breve sem recursos para pagar salários. A autoridade está se desintegrando: gerentes de fábrica e líderes sindicais estão sendo contestados pelas bases e a polícia desapareceu das ruas.

Um egípcio levantou questões perturbadoras: "E se a revolta tivesse ocorrido antes na Líbia? O que teria acontecido com o Egito?" E, em seguida, a pergunta óbvia. Numa região como o Oriente Médio, onde um ditador tenta se manter no poder pela violência, o que farão os remanescentes da autocracia egípcia se a desordem aumentar no país? Obviamente, o novo premiê, Essam Sharaf, se preocupa com a questão. Semana passada, ele alertou que já se prepara uma "contrarrevolução organizada e metódica".

E se Kadafi for derrotado e deposto? Evidentemente, isto não resolveria os problemas do Egito nem provocaria a queda da ditadura na Síria. No entanto, o vírus árabe sofreria nova mutação. A ideia de que os ditadores árabes já não poderão se salvar pelo derramamento de sangue adquiriria nova força e, provavelmente, encorajaria novos levantes em favor da democracia.

E se Kadafi cair com a ajuda militar de França, EUA e de outras potências ocidentais? Para alguns, esses desdobramento enfraqueceriam o movimento revolucionário árabe por causa da introdução de um elemento estranho. O mais provável é que ocorra o oposto. Basta perguntar a um dos principais adversários da intervenção, o colunista George Will, do Washington Post.

"As multidões do Egito observaram e aprenderam com as multidões da Tunísia", afirmou Will. "O governo líbio observou e aprendeu com o destino dos governos tunisiano e egípcio. E decidiu lutar. A intervenção dos EUA na Líbia encorajaria outros povos irrequietos a esperar a ajuda militar americana?" A resposta é talvez. E mais uma pergunta. Se surgisse na Síria um movimento de oposição que pedisse ajuda ao Ocidente, isto seria um desastre? (Tradução Anna Capovilla)

domingo, 6 de março de 2011

Revolução ou "refolução", alguma coisa muda

Claudia Antunes, da Folha, fez entrevista interessante ("Revoltas árabes ecoam Revolução Francesa, diz historiador") com um pesquisador de Harvard. Batendo papo lá no Facebook fiquei matutando: por que os estudiosos em geral têm tanto receio de associar conceitos do passado a eventos correntes? Esse  historiador não vê elementos do lema da fraternidade nos protestos árabes, não vê indícios da luta de classes em outros movimentos históricos. Tudo bem, a história se repete como farsa, mas há releituras possíveis, interpretações associativas que permitam esses paralelos, especialmente se os determinantes econômicos permaneçam, ainda que em condições históricas diversas. Ora, os operários alemães e britânicos não fizeram a revolução, como Marx previa, mas Lênin aplicou na Rússia feudal leis e categorias do marxismo e se deu mais ou menos bem. Tá, pelo menos até 1923, ok? :-))) Os egípcios da Tahir não são os burgueses franceses em luta contra o feudalismo absolutista, mas, que diabos, era o povão contra a ditadura. Há "paralelidades", tanto econômicas quanto políticas.

A Claudia então me sugeriu a leitura do texto "Paradoxes of Arab Refo-lutions", de Asef Bayat, professor de Sociologia e Estudos de Oriente Médio na University of Illinois, Urbana-Champaign. Coautor de Being Young and Muslim (Oxford University Press, 2010) [deve ser interessantíssimo!] e autor de Life as Politics: How Ordinary People Change the Middle East (Stanford University Press, 2010).

O ensaio está num site excelente que a Claudia também me indicou, o Jadaliyya. Agora mesmo tem um texto novo lá que vou ler urgentemente, Demands of Saudi youth for the future of the nation. A Arábia Saudita é o grande mistério, não? A carta, dirigida ao rei, começa com "Our precious country...", pra vocês verem como o mistério é profundo.

Pois bem, o texto abaixo é excelente, inovador e faz numerosas associações. Não fala em luta de classes ou infraestrutura econômica, mas também não é raso nas comparações. Imperdível, por isso tentei traduzir para os 10 leitores que não desistem de vir aqui, esses estoicos. PS: No texto, tirei o hífen de "refolução". PS2: As imagens foram todas incluídas por mim, exceto a da colagem: acho maravilhoso lembrar esses momentos.


***

Paradoxos da refo-lução árabe

Asef Bayat

Jadaliyya, 3/3/2011

Colagem Jadaliyya
Surgem preocupações atualmente na Tunísia e no Egito quanto a ações de sabotagem das elites derrotadas. Muitos falam, nos círculos revolucionários e pró-democracia, de uma insidiosa contrarrevolução. Não surpreende. Se revolução é luta intensa por mudança profunda, qualquer revolução deve esperar uma contrarrevolução, sutil ou grosseira. As revoluções francesa, russa, chinesa, iraniana e nicaraguense enfrentaram prolongadas guerras civis ou internacionais. A questão não é se a ameaça da contrarrevolução é esperada, a questão é saber se as "revoluções" são revolucionárias o suficiente para contrabalançar os perigos da restauração. Parece que as revoluções árabes são mais vulneráveis exatamente por sua peculiaridade: sua anomalia estrutural expressa na trajetória paradoxal das mudanças políticas.

Diretas Já (Candelária, Rio, 16/2/1984)
Historicamente, destacam-se três tipos de mudança de regime. A primeira é a “mudança reformista”. Aqui, os movimentos sociais e políticos se mobilizam para exercer pressão sobre os regimes vigentes para que empreendam reformas com as instituições de Estado existentes. Apoiada na energia dos movimentos populares, a oposição obriga a elite política a reformar leis e instituições, muitas vezes com pactos sociais. Assim, a mudança ocorre no âmbito do regime político existente. A transição para a democracia em países como México e Brasil na década de 1980 foi dessa natureza. A liderança do movimento Irã Verde segue hoje trajetória reformista semelhante. Nesse modelo, a profundidade e a extensão das reformas variam. Pode ser superficial, mas pode também ser profunda se concretizada por reformas cumulativas de caráter legal, institucional e político-cultural.

A revolução islâmica iraniana
O segundo é o "modelo insurrecional", em que um movimento revolucionário se constrói em período prolongado durante o qual reconhecida liderança e organização emergem com algum projeto futuro de estrutura política. Ao mesmo tempo em que o regime no poder resiste com a polícia ou o aparato militar, erosão gradual e deserções começam a rachar esse corpo. O campo revolucionário empurra para a frente, atrai desertores, forma governo paralelo e constrói órgãos de poder alternativo. A governabilidade do regime fica paralisada, levando a um estado de "dualidade de poderes". O estado de "poder dual" termina em batalha insurrecional em que o campo revolucionário assume o poder via força, desaloja os antigos organismos de autoridade e estabelece novos. Aqui temos uma reforma profunda do Estado, com novos funcionários, ideologia e modo de governo. A revolução iraniana de 1979, a Revolução Sandinista na Nicarágua e a revolução cubana de 1952 exemplificam tal curso insurrecional.

A revolução romena
A terceira possibilidade diz respeito à "implosão do regime", quando o movimento revolucionário constrói-se com greves gerais e práticas de desobediência civil, ou por meio de guerra revolucionária que progressivamente cerque o regime, por fim implodindo-o. Ele cai na desordem total. Em seu lugar vêm elites e instituições alternativas. O regime de Ceausescu na Romênia implodiu em caos político e violência dramáticos em 1989, mas originou grande diversidade de sistemas políticos e econômicos sob a nova estrutura, a Frente de Salvação Nacional. A Líbia de Kadafi pode experimentar essa implosão se a insurgência revolucionária continuar a estrangular Tripoli. Tanto na "insurreição" como na "implosão", e ao contrário do modelo reformista, as tentativas de mudar a estrutura política não se realizam com instituições preexistentes no Estado, mas fora delas.

Agora, a revolução do Egipto, tal como a da Tunísia, não se parece com essas experiências. No Egito e na Tunísia, os poderosos levantes políticos criaram as mais rápidas revoluções de nosso tempo. Tunisianos em um mês e egípcios em 18 dias conseguiram desalojar antigos governantes autoritários, desmantelaram várias instituições a eles associadas, incluindo os partidos do governo, o corpo legislativo e ministérios, estabelecendo uma promessa de reforma constitucional e política. Tudo isso de maneira civil, pacífica e rápida. Mas esses espantosamente rápidos triunfos não deixaram muito tempo para a oposição construir instituições paralelas de governo capazes de tomar o controle do novo Estado. Em vez disso, a oposição quer que as instituições dos regimes antigos – por exemplo, a militar, no Egito – realizem as reformas em nome da revolução, ou seja, que mudem a Constituição, assegurem eleições livres, garantam partidos políticos livres e, no longo prazo, institucionalizem o governo democrático. Aqui também reside anomalia-chave dessas revoluções – desfrutam de enorme poder social, mas lhes falta autoridade administrativa; conseguem hegemonia notável, mas na verdade não governam. Assim, os regimes permanecem: não há novos órgãos de governo que incorporem a vontade da revolução.

O Muro de Berlim (logo) vai abaixo
É verdade que, como seus homólogos árabes, as revoluções do Leste Europeu do fim dos anos 1990 também não foram violentas, mas civis e notavelmente rápidas (a revolução da Alemanha Oriental durou 10 dias), mas conseguiram, ao contrário de Tunísia e Egito, transformar completamente os sistemas político e econômico. Isso foi possível porque implodido o Estado comunista a Alemanha Oriental pôde simplesmente dissolver-se na já existente Alemanha Ocidental. Em geral, uma vez que a diferença entre o que a população do Leste Europeu tinha (partido e Estado comunista) e queria (democracia liberal e economia de mercado) era tão radical, a trajetória da mudança tinha de ser revolucionária. Se fosse apenas reformista teria sido facilmente detectada e reprimida. Algo diferente das revoluções árabes, nas quais as demandas de “mudança, liberdade, justiça social” são amplas o bastante para serem encampadas até pela contrarrevolução. Por isso, as revoluções árabes lembram mais a Revolução das Rosas da Geórgia em 2003 e a Revolução Laranja da Ucrânia (novembro 2004-janeiro 2005): em ambos os casos, maciços e prolongados protestos populares derrubaram o governo. Assim, a trajetória da mudança parece mais reformista do que revolucionária, no sentido estrito.

Revolução das Rosas (Tbilisi, Geórgia)
Mas há um lado mais promissor nos levantes políticos árabes. É inegável o modelo revolucionário poderoso nestes episódios políticos, que os tornam mais profundos que os da Geórgia ou da Ucrânia. Na Tunísia e no Egito, a partida dos governantes despóticos e seu aparato de coerção abriram espaço sem precedentes para os cidadãos livres, em especial os subalternos. Como na maioria dos momentos revolucionários decisivos, enorme energia foi liberada na política. Partidos clandestinos vieram à tona e novos se estabelecem. Organizações sociais se tornaram mais vocais e extraordinárias iniciativas populares estão em andamento. No Egito, os trabalhadores, sem medo de perseguição, agressivamente defendem suas reivindicações, pressionam por novos sindicatos independentes, e alguns deles já formaram a "Coalizão Operária Revolução 25 de Janeiro” para afirmar os princípios revolucionários de "mudança, liberdade e justiça social". Os pequenos agricultores (com menos de 10 feddans) nas zonas rurais estão se organizando em sindicatos independentes, outros continuam lutando pela melhora de salários e condições. A primeira organização dos Moradores de Ashwa'iyyat Cairo (favelas), criada recentemente, conclama à remoção de administradores corruptos e à extinção conselhos locais patrocinados pelo regime. Grupos de jovens se organizam para limpar as áreas de favela, participam de obras de reforma e recuperam seu orgulho civil. Estudantes saem às ruas para exigir do Ministério da Educação que revise os currículos. As histórias da cooperação entre coptas e muçulmanos no combate a rumores e provocações sectários já são conhecidas. E, claro, a Frente Revolucionária Tahrir continua a exercer pressão sobre os militares para que acelerem as reformas. Tudo isso representa engajamento popular de tempos excepcionais. Mas o extraordinário sentido de libertação, o desejo de autorrealização, o sonho de uma nova e justa ordem, em suma, o desejo de "tudo o que é novo" define o espírito dessas revoluções. Nesses momentos decisivos, estas sociedades foram muito à frente de suas elites políticas, expondo a anomalia dessas revoluções – a discrepância entre o desejo revolucionário do "novo" e um caminho reformista que pode levar ao “velho”.

Revolução Laranja (Kiev, Ucrânia)
Como então tiramos sentido das revoluções árabes? Não podem ser caracterizadas nem como "revoluções" nem como simples "reforma". Em vez disso, podemos falar em “refo-lutions” – revoluções que pressionam por reformas de dentro, com as instituições dos Estados preexistentes. Como tal, as refoluções expressam processos paradoxais: algo a ser protegido e ainda assim vulnerável. Refoluções têm a vantagem de garantir a transição ordenada, evitando violência, destruição e caos, males que aumentam dramaticamente o custo da mudança. Além do mais, o excesso revolucionário, o "reinado de terror", a exclusão, a vingança, os julgamentos sumários e as guilhotinas podem ser evitados. E há as possibilidades de transformação real por meio de pactos sociais, mas apenas se a sociedade civil, a base, associações, sindicatos e movimentos sociais, continuam vigilantes, mobilizados e exercendo pressão. Caso contrário, refoluções carregam em si os perigos da restauração contrarevolucionária precisamente porque a revolução não foi feita nas instituições-chave do poder do Estado. Podemos facilmente imaginar atores poderosos, feridos por levantes populares, buscando desesperadamente se reagrupar, iniciar sabotagem e instigar a contrapropaganda. Ex-altos funcionários do Estado, apparatchiks do antigo partido-chave, editores-chefes, grandes empresas, os serviços de informação, para não mencionar os militares, podem penetrar no aparelho de poder e propaganda para transformar as coisas em seu benefício. O perigo pode ser especialmente maior quando desaparece o fervor revolucionário, a vida normal volta, a dura realidade da reconstrução se impõe, e a população fica desencantada. Há pouca chance para mudanças significativas sem que se transformem refoluções em revoluções.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Grande Amorim! Viva o diplomata do amor!

Celso Amorim: Uma primeira característica que considero importante destacar é que os protestos que estamos vendo agora são movimentos endógenos. É claro que eles se valem de novas tecnologias e de alguns valores modernos, mas são motivados pela situação interna destes países. O Egito e a Tunísia, cabe assinalar também, não estavam sob sanções por parte do Ocidente. Isso mostra que a posição daqueles que defendem sanções contra o Irã é equivocada. Sanções só reforçam internamente um regime. Uma das expectativas das sanções contra o Irã era atingir a Guarda Revolucionária. Na verdade, só atingem o povo. O Iraque foi submetido a sanções durante anos e Saddam só ficava mais forte. Não havia, repito, sanções contra a Tunísia e o Egito, países considerados amigos do Ocidente e aliados inclusive na guerra contra o terrorismo, implementada pelos Estados Unidos.

Íntegra na Carta Maior

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O ditador já era! Que emoção, hein? E agora?

Tahrir/
eu fiz tudo pra você sair daqui/
vai embora e vê se leva o Suleimão/
o que eu, o que eu/ 
quero agora é eleição!

(homenagem do Marco Aurélio ao povo egípcio!)

Marco Longari/AFP/Getty/Boston Globe
***
Claro que o que eu acho tem importância zero, mas realmente acho que não se deve apostar um tostão furado na "modernidade" ou no "não fundamentalismo" dessa Irmandade ou Fraternidade Muçulmana. A toda hora leio e ouço gente jogando confeti no grupo, que no poder não promoveria um Estado islâmico e tal. Como? O slogan deles é "O Islã é a solução"! Reúne muitos cientistas e intelectuais, mas em questões de gênero é tão conservador quanto qualquer outro grupo islâmico. Em 2005, conquistou 88 cadeiras no Parlamento numa campanha fulminante. Foi perseguido e proibido, mas vinha sendo tolerado. Sei não. Tomara que a maioria egípcia prefira o Estado secular.

Mas @ALuizCosta, da Carta Capital, sugere a leitura de um texto interessante sobre o assunto, que me deixou muito otimista: "Islamistas e a revolução egípcia", de Hossam Tammam, editor de Islam Online e ele mesmo ex-irmão da Fraternidade. Alguns trechos:

Adel Hana/AP/Boston Globe
Qualquer discussão sobre o status dos islamistas num novo Egito faz pouco sentido porque se baseia nas mesmas informações usadas para estudar os movimentos religiosos, mas ignora o fato de que o Egito assiste a uma revolução que destruiu muitas das antigas características da cena religiosa.

A revolução não foi apenas contra o autocrático, repressor e corrupto regime egípcio, fincado numa aliança de dinheiro, poder e corrupção. Também foi dirigida ao establishment religioso oficial e seu discurso de apoio direto ou indireto a esse regime.

O establishment religioso oficial -- tanto islâmico quanto cristão -- foi o grande perdedor na revolução. Al-Azhar [o centro, o poder islâmico] chegou tarde para enfrentar a situação. Ahmed al-Tayyib, o grande xeque, esperou tempo demais antes de dar declarações que partiram de seu inequívoco apoio ao regime. Mas estas declarações não atenderam às expectativas da revolução. Como instituição religiosa oficial totalmente ligada ao Estado -- estrutural e financeiramente --, Al-Azhar, não mudou muito seu discurso depois da revolução.

Al-Azhar pediu calma quando a revolução atingiu o clímax. Repudiu os egípcios "em confronto" -- ignorando que o que aconteceu foi um ataque vergonhoso orquestrado pelo regime, com ajuda de criminosos e assassinos. Al-Azhar emitiu declarações vagas sobre a necessidade de acabar com a revolução, sem qualquer menção ao regime. O máximo a que chegou Al-Azhar foi convidar os jovens ativistas ao diálogo. A ponto de o porta-voz de Al-Azhar, Mohammed al-Rifa'a Tahtawi, renunciar ao cargo e unir-se aos manifestantes; vários clérigos, em seus trajes oficiais, também. (...)

A posição da mais importante instituição cristã, a igreja copta, foi de gritante apoio ao regime. O papa Shenouda condenou os protestos de 25 de janeiro e instou os coptas a não participarem. Manteve esta posição ao longo da revolução, declarando abertamente seu apoio a Mubarak. Muitos cristãos foram para as ruas, recusando-se a acatar as diretivas do papa. (...) A participação dos cristãos, especialmente os jovens cristãos, nestes protestos constitui outra revolução -- contra a igreja que usou discurso sectário para tirar os coptas da rua e reuni-los em favor de Mubarak, porque ele oferece garantias à comunidade cristã. (...)

Um dos paradoxos da revolução egípcia é que o regime que proibira recentemente a TV dos salafistas [ramo sunita fundamentalista islâmico], acusando-os de incitar conflitos religiosos sectários, inverteu a posição: xeques e seus empregados salafistas foram usados na guerra contra a revolução. Figuras como Mohamed Hassan, Mahmoud al-Masri, Mostafa al-Adawi apareceram na televisão estatal e nos canais privados fiéis ao regime. Eles pediram o fim dos protestos, usando argumentos como segurança nacional e perigo de sedição. Alguns chegaram mesmo a questionar o patriotismo dos manifestantes, alegando tratar-se de conspiração americano-sionista ou afinada com a revolução iraniana. As declarações manipuladas de líderes iranianos em apoio à revolta egípcia contribuiu ainda mais. (...)

***

Muito bom, não? Tammam (este aí do boneco) ressalva que esta generalização toda sobre os salafistas não impede que vozes discordantes tenham sido ouvidas nestes 18 dias de protesto -- inclusive de integrantes da Fraternidade Muçulmana, ela, sempre ela. Que está com o regime e também nas ruas, pronta para conquistar o que for possível. Se um ex-irmão desconfia, eu então mantenho meu olho bem aberto.

Minha próxima tarefa é arrumar alguém que conheça de fato os milicos egípcios. Aí traduzo e faço uma boa postejada aqui. Até agora nada achei que preste.

***
Por falar em revolução egípcia, já tem patrulhinhas no Twitter dizendo que só chamará de revolução depois que os resultados revolucionários ficarem claros. Ah, é? Então, como a Revolução Francesa deu no Terror e depois com os burros n'água não foi revolução? E a Revolução de Outubro, como acabou no imperialismo soviético, não foi? Ah, pajalsta! Vai catar coquinho!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mubarak caiu! #Fora Suleiman!!!!

Adianta tirar um ditador pra botar no lugar um espião torturador do mesmíssimo regime?? #ForaSuleiman!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O último comunista e a democracia do lucro

Quem conheceu a bloga antiga (link não funciona no Chrome...) sabe que o jornalista canadense Stephen Gowans, o último comunista da América do Norte (bem, tiremos o México da conta), era meu guru desde o início do primeiro governo Bush. Com os textos dele acompanhamos a invasão do Iraque, em 2003, conhecendo tintim por tintim a doutrina Bush/Rowe de dominação do mundo, que lá chamávamos de Pinky & The Brain. Ele ainda é meu guru, menos quando defende o Mugabe e outros tiranos ditos de esquerda (tem lá seus motivos, o primeiro é a dita coerência bolchevique, hahaha). Bem, os protestos no Egito trazem Gowans de volta a seus melhores momentos na ínclita missão de deixar pelados os reais interesses dos Estados Unidos no planeta.

O blog dele, What's left, um dos melhores do mundo na minha humirde, é simplesmente imperdível. What's left é um nome dúbio em inglês, "trocadilhado", reduzido de What's left in suburbia, do qual só restam os arquivos. A descrição antiga: "Política progressista de e para a classe média canadense". Em 2002, a capa era um aviso gigantesco: "Se você entrou aqui entrou também para a lista negra do FBI, que monitora este site." Adorei e assino o mailing dele desde então. Esta foto é a única de Gowans na internet, pelo que pude achar, tirada de uma rara entrevista à TV.

Então, saboreiem o jeito Stephen Gowans de desmontar o NY Times, seu hobby favorito (o original de Scott Shane está aqui).

***

Perigosamente perto da verdade sobre a política externa dos EUA

Stephen Gowans

Arte de Sara Rahbar: "God bless America Flag"
Começou promissor. No fim de semana, Scott Shane, do New York Times,  perguntou por que "o drama que se desenrola no Cairo" parece "tão familiar" se "os Estados Unidos, como tantos presidentes disseram em muitos discursos, são os campeões mundiais em democracia".

Shane não chegou à conclusão óbvia, de que os Estados Unidos não são os campeões mundiais em democracia. Mas chegou perto.

Mencionou alguns dos exemplos mais flagrantes do apoio de Washington a ditadores: Batista em Cuba; Mahammed Reza Pahlavi no Irã; Ferdinand Marcos nas Filipinas (cuja "adesão aos princípios democráticos e ao processo democrático" o então vice-presidente dos EUA George H.W. Bush descaradamente elogiou). "A lista poderia ser estendida", Shane admitiu, "para pelo menos uma vintena de déspotas" apenas a partir da Segunda Guerra Mundial.

Raramente o New York Times reconhece a longa história de apoio dos Estados Unidos a ditadores, todos de direita e não poucos fascistas. Pelo contrário, o jornal reforça o discurso de que a política externa do país seja guiada pelos valores de disseminação da democracia. Talvez a mudança se dê porque não há mais como os Estados Unidos continuarem a apoiar seu paladino de três décadas no Egito, Hosni Mubarak - e a continuação do regime com seu herdeiro, Omar Suleiman - e ainda recorrer à retórica pró-democracia para justificar tal apoio (embora a fala da secretária de Estado Hillary Clinton sugerindo que Suleiman supervisione a transição à democracia seja uma tentativa).

Com a hipocrisia americana exposta, o New York Times teve de fazer uma concessão à verdade -- pelo menos parcial.

Shane admite que os EUA têm valores e interesses, e as circunstâncias muitas vezes conspiram para que os dois se cruzem. Mas isso é o máximo a que ele chega. Admitindo que os EUA têm "interesses" que não se alinhem sempre aos "valores" ele se aproxima perigosamente da verdade. Ok, mas quais são os interesses? R. Palme Dutt observou certa vez que a idéia de que os países têm interesses em outros países é uma abominação da geografia e da democracia. Como poderiam os EUA ter interesses no Egito?

Têm os egípcios interesses nos EUA que precisem ser reforçados com o envio de milhões de dólares a um ditador para manter os interesses dos cidadãos americanos subordinados a seus próprios? Se sim, os americanos deveriam chamar isso de imperialismo, em vez de ausência de valores ou interesses a alinhar. Se os egípcios dizem que realmente valorizam a democracia, mas outras considerações falam mais alto, os americanos deveriam responder que o compromisso do Egito com a democracia é retórico, as outras considerações é que realmente importam.

De acordo com Shane, Mubarak tem servido aos interesses dos EUA como "um forte aliado contra o expansionismo soviético", mantendo "paz crítica com Israel", como "um baluarte contra o radicalismo islâmico" e na promoção de "um Egito comercial e turístico amigável". Mark Landler, colega de Shane no Times, resume desta forma: o regime de Mubarak defende os interesses estratégicos e comerciais dos EUA.

Os interesses comerciais são, naturalmente, os interesses comerciais e, mais especificamente, os interesses das grandes corporações. Não representam em muitos casos nem direta nem indiretamente os interesses da maioria dos cidadãos americanos. Um callcenter montado no Egito por empresa dos EUA, para tirar proveito dos baixos salários, favorece os ricos acionistas da empresa, e muitos deles nem americanos são, pressiona os salários nos EUA e exporta empregos.

Em outras palavras, os interesses comerciais que Mubarak e outros autocratas apoiados pelos EUA em nome da proteção dos interesses dos Estados Unidos não são os interesses da maioria dos cidadãos americanos, mas de um estrato superior de investidores, banqueiros e acionistas abastados cuja única lealdade é com seu próprio rabo. Os interesses dos americanos médios dificilmente importam. De fato, em muitos casos, seus interesses são diametralmente opostos.

E quem está pagando a conta dos bilhões de dólares em ajuda militar ao regime de Mubarak? É o americano médio, não os beneficiários diretos da política externa dos EUA.

É pior. Os idealizadores da política externa dos EUA não se opunham ao que chamavam de "expansionismo soviético" porque valorizavam a "democracia", mas porque valorizavam a exploração quase ilimitada do trabalho, que a expansão da influência soviética impedia. O problema com o radicalismo islâmico não é porque ele ofenda os valores ocidentais (mesmo que até ofenda), mas porque inspira regimes que colocam os interesses nacionais acima das companhias de petróleo dos EUA. A paz entre o mundo árabe e Israel é desejável porque Israel é encarregada por Washington de atuar como agente preventivo de um pan-nacionalismo árabe que poderia levar os países ricos em petróleo a refugar ante o domínio dos interesses petrolíferos americanos.

Então, que valores dos EUA? Querem que acreditemos que os idealizadores da política externa americana valorizam a democracia liberal, mesmo que os interesses no lucro venham antes. Mas se quando colidem os grandes interesses empresariais prevalecem sobre a democracia liberal, o que Washington realmente valoriza -- se valor tiver aqui algum significado -- é o lucro.

Assim: digo que valorizo a literatura de valor, mas ponho os livros de lado quando alguém liga a TV. E nunca perco um episódio de Cribs. Assim, onde estão meus valores realmente?

O abraço à democracia liberal apenas onde não entre em conflito com a busca do lucro aplica-se igualmente à esfera doméstica. Atesta isso a presteza dos governantes americanos em jogar no lixo as liberdades civis nos anos do "Perigo Vermelho" após a Revolução Bolchevique -- quando os capitalistas se encolheram diante da idéia da revolução socialista se espalhando pelo mundo.

Quanto à democracia que Washington está disposta a abraçar, parece boa no papel, mas é curta na prática. A democracia de Washington não é a democracia em seu sentido original, como a de uma classe anteriormente oprimida (a maioria), mas a democracia da classe dominante, os ricos capitalistas. Secretários de gabinete e editorialistas exaltam essa democracia que parece proporcionar oportunidades iguais a todos para influenciar o processo político, mas a realidade é que os ricos usam o dinheiro para dominar o processo por meio do lobby, do financiamento dos partidos políticos e candidatos, da propriedade dos meios de comunicação e o posicionamento de seus representantes em cargos-chave no Estado.

Quantos funcionários do governo Obama tinham cargos importantes em empresas e a eles retornarão quando sua estada em Washington terminar, substituídos por outros luminares corporativos que viajam nos mesmos círculos, sentam-se nas mesmas mesas diretoras, cujos filhos vão às mesmas escolas e se casam entre si? A arte da política na democracia capitalista, parafraseando um político-chave do Partido Trabalhista do passado, é permitir que os ricos nos convençam a usar nossos votos para mantê-los no poder.

Democracia, portanto, não é um valor central nos EUA -- e não é por duas razões. Primeiro, a democracia que Washington abraça não é democracia em nenhum sentido substancial, é antes uma plutocracia com pompa democrática. Por outro lado, o real valor central dos EUA é o lucro. Mesmo essa democracia dos ricos é posta de lado quando, por qualquer motivo, os interesses do big business não possam ser acomodados adequadamente -- isto é, sempre que alguma expressão da democracia real ameace romper as limitações do sistema.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Meet miss South Carolina. Ops, Sarah Palin!

Achei isso em The Nation. Mal pude acreditar. Deixo o original em inglês embaixo, para que traduzam melhor do que eu.

Pausa cômica: Sarah Palin sobre o Egito

Robert Dreyfuss

Sarah Palin, em seus primeiros comentários sobre o Egito, conseguiu fazer sentido nenhum. Nenhum. Gostei especialmente de seu "não, não real entusiasmada com o que é, isso que está sendo feito" [em DC]." Aqui está a citação completa, que soa como se escrita por Miss Carolina do Sul, falando a todos os "americanos dos EUA": "E ninguém ainda, ninguém ainda explicou ao público americano o que eles sabem, e certamente eles sabem mais do que o resto de nós sabemos quem é que vai tomar o lugar de Mubarak e não, não, não real entusiasmada com o que é, isso que está sendo feito em nível nacional e no DC em relação a compreeder toda a situação lá no Egito. E nessas áreas, que são tão voláteis agora, porque obviamente não é apenas o Egito, mas os outros países também, onde estamos vendo revoltas, sabemos que agora mais do que nunca precisamos de força e mente sã lá na Casa Branca. Precisamos saber o que é isso que a América defende assim sabemos com quem é que esta América vai estar. E, nós não temos todas essas informações ainda".
Sarah Palin, in her first comments on Egypt, managed to make no sense at all. None. I especially liked her “not, not real enthused about what it is that  that’s being done [in DC].” Here’s the full quote, which sounds like it was written by Miss South Carolina, speaking for all “U.S. Americans”: “And nobody yet has, nobody yet has explained to the American public what they know, and surely they know more than the rest of us know who it is who will be taking the place of Mubarak and no, not, not real enthused about what it is that that’s being done on a national level and from D.C. in regards to understanding all the situation there in Egypt. And, in these areas that are so volatile right now, because obviously it’s not just Egypt but the other countries too where we are seeing uprisings, we know that now more than ever, we need strength and sound mind there in the White House. We need to know what it is that America stands for so we know who it is that America will stand with. And, we do not have all that information yet.” (Robert Dreyfuss, jornalista investigativo, é editor colaborador da Nation em Alexandria, Virginia)
***

MadiaMatters, de onde tirei a imagem, também trata disso aqui.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A vida fora da Praça Tahrir

Vi essa matéria de ontem no Monde e achei interessante para mostrar como estão vivendo os egípcios que não vão à Praça Tahrir todo santo dia, há 11 dias, protestar por horas a fio. Reparem que ninguém xinga os manifestantes (ou o Monde cortou ou estão todos entendendo -- e apoiando -- os protestos).

Fila em padaria do Cairo (Mohammed Abou Zaid/AP/LeMonde)

“Manhãs em busca de gêneros de primeira necessidade”, Le Monde, 3/1/2011

Civis que se transformam em milicianos para garantir a segurança, longas filas diante das lojas. Os protestos têm perturbado a vida cotidiana dos egípcios, especialmente quanto ao abastecimento de comida. No Cairo, caixas eletrônicos foram recarregados pela primeira vez na quarta-feira, mas os supermercados continuam lotados. Enquanto aguardam o regresso à normalidade, egípcios tentam se organizar.

"Se essa situação persistir, o abastecimento será um problema real", por Nada

Apesar de tudo o que vivemos de insuportável nesses dias de alegria extrema, medo, sonhos de um país melhor, otimismo, apesar do medo de um futuro desconhecido, para mim, o toque de recolher e o desabastecimento nas lojas não são um problema. Estou disposta a tudo para fazer de meu país um lugar melhor. Estudante na Universidade do Cairo, os exames foram adiados ninguém sabe até quando, mas isso não me incomoda porque, nessa situação, seria impossível fazer exames. Nas lojas, alguns produtos começam a faltar, mesmo que a informação tenda a ser distorcida e exagerada pela mídia egípcia e outras para que aceitemos qualquer coisa que o presidente pense em nos oferecer para salvar a situação. Mas se esta situação persistir, o abastecimento será um problema real. Quanto à comunicação com os parentes, os telefones fixos deram conta, mas psicologicamente me senti reprimida pelo regime quando interrompeu os serviços de internet e de celular.

"Não foi possível transferir os salários de meus funcionários em janeiro", por Lawrence

Nesta quarta-feira, no mercado, os preços subiram claramente em relação a ontem. No entanto, os legumes são sempre frescos e não parece haver problemas de abastecimento. Nos supermercados, a situação é diferente. Eles estão lotados desde o início dos protestos. Segunda-feira houve um balé constante entre o depósito e a loja, pois a demanda era grande. Hoje, as prateleiras foram reabastecidas em apenas um terço e olhe lá, não temos mais estoque. Dirijo uma fábrica no subúrbio de Alexandria, onde os guardas se refugiaram. Por enquanto a fábrica não foi atacada. Não foi possível transferir o salário de janeiro de meus funcionários, porque os bancos ainda estão fechados. Esperamos um retorno ao normal no domingo, e espero poder reiniciar meu negócio. (...) Hoje, depois de vários dias e noites na rua, não há ninguém pró-Mubarak. Sua saída é desejada por todos. Todos anseiam por voltar à vida normal: dormir na cama, comer, trabalhar.

Lixo não recolhido (MiguelMedina/AFP/Le Monde)
"À 17h, uma sucessão de barreiras e controles dirigida por civis", por Amanda

Em Alexandria, a vida cotidiana mudou consideravelmente. As manhãs são passadas em busca de necessidades básicas em lojas e supermercados tomados de assalto, onde os clientes são filtrados. O toque de recolher soa às 17h, o ritmo da cidade cai de só golpe e então surgem barreiras e controles dirigidos por civis usando braçadeiras brancas, que fazem vigília a noite toda no diferentes bairros, num clima amistoso que permite que as pessoas se conheçam melhor e formem brigadas para garantir a segurança e fazer a limpeza. De fato, desde o início dos eventos, os serviços de limpeza não mantêm um nível mínimo de limpeza ou coleta de lixo, que é queimado.

"Tomamos nossa proteção na mão", por Fady

Sou estudante de Medicina. Na semana passada, minha vida foi severamente prejudicada, porque nosso dia se resumia em recuperar veículos e bens roubados. Ao patrulhar meu bairro com meus amigos, controlamos as placas dos carros, tomamos nossa proteção em nossas mãos. Tenho saudades da minha antiga vida, de navegar na web e me comunicar livremente com meus amigos... Minha vida agora se resume a ouvir nossas estações locais de TV, como Al-Jazeera. Agora, o toque de recolher nos faz perder três vezes mais tempo nas compras. Farmácias e supermercados vendem tudo o que têm e não sabem quando serão abastecidos. Um farmacêutico me disse: "Em breve vou virar soldado". (...)

Barreiras civis (Dylan Martinez/Reuters/Le Monde)
"As pessoas estocam comida, pão, gasolina e dinheiro", por Elodie

Professor numa escola francesa no Cairo, moro num bairro do norte da cidade, longe o suficiente do centro. Paramos de trabalhar na quinta-feira passada, a situação ficou mais difícil. Na verdade, na sexta-feira as comunicações foram quase que totalmente cortadas. Restava o telefone, pelo qual recebia ligações de parentes. Nesse dia, começou o toque de recolher. As pessoas estão estocando comida, pão, combustível e dinheiro. Por enquanto, a loja onde costumo ir ainda está bem abastecida. Durante o dia, podemos circular sem problemas. As noites, ao contrário, são sempre agitadas. Em toda parte as pessoas vigiam as ruas graças às barreiras, mas às vezes ouvimos gritos, tiros, uma agitação perceptível mesmo aqui do quarto andar. Os dias são longos sem internet, sem canais internacionais. Uma espécie de teste de confinamento nesta cidade que normalmente não descansa. Além disso, quase todas as lojas que não vendem comida estão fechadas, as vitrines protegidas por placas de madeira ou recobertas com tinta branca para evitar saques.

"Baixamos proxies para contornar a censura", por Novinha

Tuiteira assídua, segui a preparação do primeiro grande evento, em 25 de janeiro. Primeiro eles cortaram o Twitter e o Facebook, mas baixamos proxies para burlar a censura, e continuamos a dar informações. (...) Então, de manhã, foram cortados internet e celulares. Acompanhamos os acontecimentos nos canais internacionais (Al-Jazeera em inglês, BBC World, CNN, TV5). Usamos nossos telefones fixos (apenas ligações locais), o que permite trocar informações com os amigos. E os boatos às vezes são terríveis, difícil verificar ou refutar. (...) As crianças estavam ansiosas no início, mas foram abrigadas por amigos preocupados com sua segurança, em sua casa a poucos quilômetros daqui; agora brincam com os amigos e pensam em outra coisa. À noite, as milícias continuam a patrulhar após o fechamento das ruas com barricadas improvisadas. Temos provisões, nada nos falta. As lojas começaram a reabrir hoje.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O vídeo e o comentarista


(via @gunstreetgrrl29)

O vídeo é impressionante por si mesmo: um brucutu da "polícia" atropela manifestantes. Mas um dos comentários lá é tão chocante quanto:

Isn't it bias that everyone call this government a regime. The new government will also be a regime so what's a difference. How can you care about this people that want to break a truce with Israel and put millions of Jews in danger.

hm41969 17 minutes ago

Traduzindo: Não é preconceituoso que todos chamem este governo de regime? O novo governo será também um regime, então qual a diferença? Como vocês podem gostar deste povo que quer quebrar a trégua com Israel e colocar milhões de judeus em perigo? (ela não usa interrogação, mas as frases são claramente interrogativas).

O comentarista é israelense. E já responderam a ele, veja na mensagem ao alto da imagem)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Quem faz revolução é gente. Não coisifiquem a revolução!

Interessante discussão no Twitter sobre o peso da internet na revolução egípcia que, 8 dias depois de seu início, ainda não tem conclusão possível. Quem disser que sabe aonde vai dar estará mentindo.


O debate começou entre @caribe, o ciberativista fusion João Carlos Caribé (o blog dele, Entropia, lembra meus primórdios na internet: em 1993, quando cheguei à rede pelas mãos do Sérgio Charlab, lá no velho JB, ela era puro texto; quando apareceu a web gráfica, pouco depois, um dos primeiros sites com imagens foi um tal Entropy, impressionante, chocante, que me sinto incapaz de linkar agora porque a net é hoje uma loucura entrópica). Pois bem, @caribe discutia com @ALuizCosta, o escritor e humanista Antonio Luiz Costa, colunista da CartaCapital, sobre o peso da internet nos protestos em curso no Egito. Duas pessoas de esquerda.

@ALuizCosta dizia frases assim:
* A internet é útil, mas não está só a seu/nosso favor. É um instrumento de espionagem e controle de empresas e governos, também
* A internet foi bloqueada e não fez diferença alguma para os protestos. Mubarak iludiu-se, como vocês
* Não foi preciso internet para derrubar a Bastilha, lembra?
* Da demissão de Necker (11 de julho) à queda da Bastilha (14 de julho) foram três dias. Nada mau 
*  Página 1/26 de panfleto egípcio "Como protestar de maneira inteligente", via @yurikropotkin 
*  Página 26/26 do panfleto egípcio "Como protestar de maneira inteligente", via @yurikropotkin
* Parece que Mubarak comprou o mito de que há "revoluções por Twitter", tanto que derrubou a web. Mas só prejudica a economia
* A rede está fora do ar há dias e os protestos são cada vez maiores. E a maioria dos egípcios nem tem acesso à internet
@caribe dizia frases assim:
* Ja falaram, com a Internet toda revolução é mais rápida, democrática e eficiente
* E não entendo esta dificuldade de alguns de entender a Internet como a maior ferramenta de democracia de todos os tempos
* E digo mais, é impossivel hoje em dia qualquer mobilização daquele porte sem uma comunicação em rede
* Por fim acreditar naqueles papeis chega a ser inocente, ainda mais pensar que eles não serão interceptados
Aqui no Brasil mesmo, paramos o AI5digital usando Twitter, Orkut, Blogs e email.
* É a sindrome de Gladwell/Keen - Alias o povo ainda enxerga a rede e as ruas como duas coisas estanques.
E recomendou textos e mais textos e mais textos e mais textos interessantíssimos para que "entendamos" o poder da rede. E quem não entende esse poder não passa de um conservador inconformado com essas óbvias mutações. Ele diz, por exemplo, isso:


Ou seja, a internet é deus (como todo bom nerd ele usa até maiúscula na inicial de internet; aposto que não usa para jornal, televisão, rádio, cassete, máquina fotográfica... sou iconoclasta em matéria de caixa alta, como boa filha do velho JB, que mantinha saudável desrespeito a tudo e todos -- do presidente ao papa, é caixa baixa, exceto em nome próprio). A internet é quase que meio e fim, a razão pura, o 42 do Mochileiro das Galáxias.

Difícil concordar inteiramente; não sou adoradora da internet não, eu uso a internet, e pra caramba! Já o @ALuizCosta, tuiteiro "contumaz", de repente estava minimizando ao máximo o papel das redes, até exagerando, como não raro nos acontece sob pressão. Olhem só este tweet:


Claro que panfletos podem ser interceptados, assim como a internet pode ser derrubada (no Egito, bastaram alguns telefonemas de Mubarak e sua quadrilha, encastelada no poder há 30 anos e disposta a mantê-lo). Mas graças à internet posso ver a Jazeera em inglês, acompanhar os acontecimentos pelo Twitter, assinar uma petição de apoio, ler os textos sensacionais do Robert Fisk e do Pepe Escobar. O mundo pode dar seu apoio aos manifestantes e Mubarak não pode mais esconder seus segredos, como tenta pateticamente sua patética TV Nile.

Só que o buraco é mais embaixo. @ALuizCosta indicou apenas um texto -- The Twitter Revolution Must Die --, um desses textos que caem na nossa cabeça pela força da gravidade e fazem diferença em nossas vidas. Ulises Mejias, o autor, professor-adjunto da Suny Oswego (State University of New York at Oswego), considera que ambos os lados deste eterno debate (a internet como o Olimpo de Zeus ou o Submundo de Hades) sofram do que chama de "determinismo tecnológico". Para ele, a resposta está no meio, porque tecnologia e sociedade mutuamente e continuamente influenciam uma à outra, ufa!, e esse discurso sobre a alegada revolução das redes sociais é apenas outra forma de despolitizar nossa compreensão dos conflitos, de encobrir o papel do capitalismo na supressão da democracia. Ufa! Ufa! "Que poderosa afirmação de nós mesmos acreditar que as pessoas envolvidas numa luta desesperada pela dignidade humana estejam usando os mesmos produtos da web 2.0 que nós usamos!" Ufa! Ufa! Ufa! E por aí vai (TRADUZIDO AQUI). Mas o melhor estava no princípio: "Você já ouviu falar da revolução da Leica? Não?" Ele fala da Revolução Mexicana, a primeira obsessivamente fotografada, e prossegue:
"(...) Meu sarcasmo é, naturalmente, mal velada tentativa de apontar o absurdo que é, na referência aos eventos no Irã, na Tunísia, no Egito e em outros lugares, como a Revolução do Twitter, a Revolução do Facebook e assim por diante. O jeito com que chamamos as coisas, os nomes que usamos para identificá-las tem um poder simbólico incrível e eu, por exemplo, recuso-me a associar marcas corporativas às lutas pela dignidade humana. Concordo com Jillian York, quando ela diz:
"(...) Estou contente que os tunisianos tenham sido capazes de usar as mídias sociais para chamar a atenção para sua situação. Mas não vou desonrar a memória de Mohamed Bouazizi [que se incendiou nos protestos] ou a dos outros 65 que morreram
por suas causas nas ruas, por isso, nada de dublagem, não chamarei isto de outra coisa a não ser de revolução humana."

UAU! Já tinha me metido no papo das duas feras um pouco do lado do @ALuizCosta pra defender o poder "das ruas", que no passado deve ter sido declanchado até a partir de sinais de fumaça, um pouco do lado do @caribe, porque a internet, de fato, facilita as coisas. Só que estava na minha cabeça, a partir de uma tuitada alheia de dias atrás que não arquivei, a teoria da revolução de Marx, esse gênio que enquanto errava feio na Alemanha profetizava tudo o que estamos vendo no mundo há uns 160 anos. E achei um ensaio, A Comuna de Paris e a teoria da revolução em Marx: Do balanço na "Guerra civil em França" às conclusões de Engels no "Testamento" de 1895, de Valério Arcary, que é doutor em História Social (e do PSTU...), cujo último parágrafo é o seguinte:
"Assim como a crise econômica incide sobre as lutas de classes, porque abre e precipita a crise social, as lutas de classes, a maior insegurança ou maior determinação de cada classe social na defesa de seus interesses, também incide sobre o processo econômico, aprofundando as tendências à crise ou favorecendo a recuperação." 
Aí estão as palavrinhas mágicas. Luta de classes. Todos sabem como sou fanática pela rede, como festejo esse poder imenso (quase o mesmo da CIA, hahaha!), mas revolução pela internet? Sou conservadora por achar que nossa humanidade seja a força que move essa doideira de mundo? E que a luta de classes é que bombeie as transformações? Então, sou. A humanidade nas ruas, resistindo, é a força que (ok, vou ser antiga!) hardware, o que você chuta, ou software, o que você xinga, algum pode substituir. Ajuda nos combates, demais. Mas a luta de classes empurra e a gente faz.

E viva a revolução!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os militantes egípcios esperam nas coxias

Graças ao Asian Times Online e a outros poucos veículos, além de, obviamente, à grande @VilaVudu, a gente sabe das coisas que realmente acontecem no Egito. Do New York Times, por exemplo, você fica sabendo apenas que o Obama pediu ao Mubarak que não concorra novamente em setembro!!! Pode? Essa gente é toda cega e surda? Setembro, Obama? Até setembro você mesmo pode ter caído!

Mas este artigo rebate outro, de Pepe Escobar (leia aqui no Teia Livre, também tradução de @VilaVudu) tratando da moderada Fraternidade Islãmica. Ele não acredita no reaparecimento da militância islãmica no Egito. Já Syed Saleem Shahzad, com base no exemplo do Paquistão, sim...



Os militantes esperam nas coxias

Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online, 1/2/201

Editor-chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão

ISLAMABAD. Não há força de oposição no Egito, ainda que se considere a Fraternidade Muçulmana, suficientemente organizada, nesse ponto, para assumir o poder no caso de as manifestações públicas em marcha nas principais cidades do Egito levarem ao fim do governo de Hosni Mubarak e à queda do presidente.

Até agora, os protestos não apresentaram demandas estruturadas, além de clamarem pela queda de Mubarak, 83, há 30 anos no poder.

Um dos coringas do drama que se desenrola no Egito – onde um milhão de manifestantes tomam as ruas do Cairo hoje – são os cerca de 15 mil ex-militantes que foram libertados pelas cortes nos últimos dez anos, mas permanecem nas listas de observação dos serviços de segurança e agências de inteligência egípcios.

“Mártires são necessários para eventos, e eventos são necessários para revoluções. E sem revoluções não há avanço” disse hoje o destacado analista político paquistanês Farrukh Saleem no The News International. “Há revolução quando o descontentamento público leva ao rompimento da ordem estabelecida. As revoluções são espontâneas, com raízes em áreas política e economicamente desassistidas. As revoluções começam fora dos centros de poder, em áreas nas quais o mando do Estado seja fraco; depois, as revoluções movem-se na direção do centro do poder.”

Os milhares de militantes foram cercados e caçados entre o final dos anos 1990s e o início de 2001 por Omar Suleiman, ex-chefe da inteligência, que essa semana foi nomeado vice-presidente. Se o aparelho de segurança do governo Mubarak entrar em colapso, aqueles militantes bem podem ter o que dizer sobre a direção para a qual o país deve andar.

A maioria dos militantes pertencem ao grupo al-Gamaa al-Islamiyya e a inúmeras organizações clandestinas que brotaram durante e depois da Jihad afegã contra a União Soviética. Promoveram muita agitação no Egito ao longo dos anos 1980s e 1990s, quando sequestros e ataques a turistas e contra as forças de segurança eram rotina.

A maioria dos grupos foi brutalmente dizimada pelos serviços de segurança; centenas de militantes foram executados, milhares metidos em prisões e vários milhares foram libertados depois de cenas de arrependimento e confissões públicas, obrigados, mesmo assim a apresentar-se regularmente às autoridades policiais para controle.

Esses militantes, com possivelmente centenas de outros que escaparam das prisões nos últimos dias, estão agora misturados à multidão pelas praças, com as forças de segurança obrigadas a enfrentar o que muito provavelmente é o maior desafio que jamais enfrentaram no Egito.

Durante o fim de semana, pela primeira vez desde o início das manifestações, semana passada, apareceu um primeiro sinal de atividade dos militantes islâmicos nas ruas, quando pelo menos quatro prisões foram atacadas e centenas de militantes islâmicos presos foram libertados. É amostra clara da vulnerabilidade de um aparato de segurança conhecido pela brutalidade.

O exemplo do Paquistão

No início dos anos 2000s no Paquistão, o regime o ex-presidente general Pervez Musharraf atacou duramente organizações militantes como Sepah-e-Sahabah, Harkatul Mujahideen, Laskhar-e-Taiba e Jaish-e-Mohammad. E tomaram-se medidas estritas para evitar que os membros desses grupos se unissem a grupos ligados à al-Qaeda.

Apesar disso, o início de atividade de guerrilha de baixa intensidade nas áreas tribais do país mobilizou imediatamente aqueles militantes, e não houve mecanismos das estratégias de contraterrorismo que os detivesse e, sim, eles logo apareceram aliados à al-Qaeda para lutar contra o establishment.

No Iêmen, o quadro é semelhante. As operações anti-al-Qaeda no início dos anos 2000s praticamente eliminaram a al-Qaeda no país. Mas imediatamente depois que alguns líderes militantes iemenitas escaparam da cadeia, começou a haver atividade de guerrilha de baixa intensidade nas áreas tribais – e essa ação despertou muitas células de militantes adormecidas em todo o Iêmen.

O Egito tem longa história de militância política de resistência, por mais que tenha permanecido adormecida há muitos anos.

Emergiram facções militantes imediatamente depois do assassinato de Hasan al-Banna, fundador da Fraternidade Muçulmana, em 1948. O golpe militar e a consequente chegada ao poder do general Gamal Abdel Nasser em 1956, auxiliado por militares ligados à Fraternidade Muçulmana, reunificou a Fraternidade por algum tempo, a qual então se havia dividido em pelo menos três facções.

Depois, as diferenças que começaram a brotar entre Nasser e a Fraternidade levaram a longo período de repressão, que durou até meados dos anos 1960s, quando a Fraternidade desistiu oficialmente da militância armada e abraçou as vias democráticas.

No início dos anos 1970s, a Fraternidade Muçulmana e grupos de militância islâmica pareciam relíquias de museu, mas voltaram à vida no final dos anos 1970s e, no início dos anos 1980s já estavam capacitados para, sob o comando de Ayman al-Zawahiri, planejar um golpe de Estado. O golpe falhou por vários motivos, mas os militantes conseguiram assassinar o presidente Anwar Sadat em 1981.

Estudo atento da história da militância islâmica no Egito mostra que, embora tenha sido esmagada várias vezes, ela sempre renasce, mesmo que depois de muito tempo.

Depois do assassinato de al-Banna, os movimentos militantes surgiram como reação ao crime. Do final dos anos 1950s até os 1960s, a militância assumiu traços de fundamentalismo extremamente ideológico e declarou que o Egito seria sociedade de hereges. Foi o início de uma rebelião, mas foi controlada até meados de 1970s, quando o reatamento de relações diplomáticas entre Egito e Israel deu novo alento aos militantes, ação que culminou com o assassinato de Sadat.

A Jihad afegã nos anos 1980s deu nova dimensão à militância islâmica, que trabalhou por uma revolução islâmica no Egito. Mas no início dos anos 2000s, as autoridades outra vez retomaram o controle.

Agora, aí estão os protestos de massa gigantes no Egito, e a militância pode renascer – dessa vez, com uma outra dimensão: nos palcos de guerra do Afeganistão e do Iraque, as guerrilhas são lideradas pelo campo egípcio controlado pela al-Qaeda, e o levante nas ruas do mundo árabe pode garantir popularidade sem precedentes ao radicalismo. (Ver “Al-Qaeda's unfinished work” [O trabalho não concluído da Al-Qaeda], 1/2/2011, Asia Times Online].)

Egito, Iraque e a geografia da Fox News

É brincadeira, mas bem poderia ser verdade. A Fox News não sabe geografia NEM dos Estados Unidos. Pois acabo de ver um tweet ironizando essa "noção de geografia" da Fox. Cliquei no link e... os gênios teriam colocado o Egito no lugar do Iraque:


Eis o Egito:

Geography lesson for the day

Tecnicamente, o país está no Norte da África com Argélia, Líbia, Marrocos, Sudão, Tunísia e o território do Saara Ocidental, disputado por vários países. Mas o Egito é na verdade transcontinental devido à Península do Sinai, que está na Ásia.

Mas sabe como é, os Estados Unidos apagaram o Iraque do mapa em março de 2003, quando invadiram o país, não é isso? E aí arrastaram o Egito pro lugar dele. Qual o problema?

Essa brincadeira tem aparentemente dois anos, até se vê que as linhas do mapa são diferentes. Mas o MediaMatters publicou: "From the July 27 edition of Fox News' The Live Desk (hat tip to Twitter user StefanoScalia). Então, publico também. :-)))

domingo, 30 de janeiro de 2011

A página gigante da história do Egito

Khaled Desouki, AFP/Getty Images/The Daily Beast
Como se sabe, quanto mais se treina mais se tem sorte. Era o que repetia Maurício Dias, meu querido chefe na Política do JB. Mas certos seres, porque treinam muito mesmo, são bem mais premiados. Robert Fisk estava, como sempre, no lugar certo na hora certa, e descreve aqui como ninguém, estrangeiro ou egípcio, aquilo que vimos pela CNN ou pela Jazeera. Que coisa este homem! Somos apresentados aos battagi, a brutal polícia à paisana de Mubarak, "linha de frente do Estado egípcio". Para completar, o cidadão ainda encontra num restaurante o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, em pessoa, e eufórico! "Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa."

Eu te amo, Robert Fisk!

***

A multidão contra o ditador

Robert Fisk, The Independent, UK, 29/1/2011; tradução: @VilaVudu

Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.

Enquanto Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogêneo das milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos os seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.

Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-policiais, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak.

Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogêneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam sobre as grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não mais aceitará a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios policiais pareciam saber que estavam sendo derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.

Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de policiais uniformizados da cabeça aos pés e e milicianos sem uniforme.

Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de concreto, e uma fileira de policias especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed ElBaradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os policiais fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.

Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direção aos policiais. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados diretamente contra ElBaradei, que retrocedeu, encharcado.

ElBaradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios creem que chegue a governar o Egito – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prêmio Nobel, trabalhou como principal inspetor da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, ElBaradei não passaria de mais um criador de confusão, com sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.

Aí, começaram as granadas de gás lacrimogêneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo daria a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a internet – o que isolou o Egito, do resto do mundo – e todos os sinais de telefonia celular estavam mudos. Não fez diferença.

“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogêneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.

A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e camisetas, passando em fila pela frente de uma loja de sucos, onde o dono esguichava limonada diretamente na boca dos passantes. Suco de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.

Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egito, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos.

As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até a frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os policiais uniformizados andam em pelotões, o sol refletindo no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuzados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.

Peter MacDiarmid/Getty Images/Stratfor
Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espetáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava acontecendo –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direção à cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.

O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Nos abrigamos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com garçons vestidos de azul; e ali, tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reação!” – festejou ele. “É como se nada estivesse acontecendo. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentamos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.

E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. Coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egito, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egito perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egito venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?

As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, blindados da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um blindado da polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um policial ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os policiais – e nos guiou até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltamos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzamos com uma lancha amarela, super-rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, carregava uma imensa bandeira: a bandeira do Egito.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...