sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Meu mau-caráter preferido

Nenhum político é totalmente bom ou totalmente mau, quem não sabe? Ninguém pense que acho o Barack Obama um príncipe. (ops...) Ser eleito exige concessões que não livrariam nem nossas mães. Esse post é sobre o caráter do Barack Obama e do John Mccain -- ou melhor, sobre O QUE EU LI do caráter deles.

A propósito, Robert Draper é bom pra cacete, mas que sujeitinho pra dar raiva! Só que antes de dar raiva ele faz você rir. Eis uma demonstração do humor dele:

Meu muçulmano socialista favorito

Eu soube da indicação do Biden para vice do Obama via Al-Jazeera. "Biden é considerado um peso-pesado em política externa", dizia a legenda em inglês, que eu entendi com um endosso da Al-Jazeera. (De nada, Schmidt.) [eu explico: Steve Schmidt é o chefão da campanha do McCain, e um endosso da Jazeera "provaria" que o Obama é mesmo islâmico etc.] Preferiria ter visto outra notícia, mas a recepção em Merka, Somália, não era suficientemente boa para acessar a WFTV da Flórida [eu explico: gozação com uma cretina dessa TV da Flórida, que perguntou ao Biden, entre asneiras inomináveis, se o Obama é marxista; o Biden riu: isso é uma brincadeira?, devolveu ele. Rendeu uma semana na Fox News, porque ser marxista nos EUA é crime de lesa-pátria!!] Um fotógrafo da National Geographic e eu estávamos ociosos em Merka nos escondendo dos seqüestradores islâmicos que tinham acabado de raptar os freelancers Amanda Lindhout e Nigel Brennan, que 2 meses depois permanecem em cativeiro, e seus captores exigem US$ 2,5 milhões, ou eles serão mortos. Reze para seu retorno em segurança.)

Uma semana mais tarde, eu estava fora da Somália, com crachá do New York Times, na convenção republicana, cercado de republicanos barulhentos. E pensava: você nunca está realmente seguro.

Somália e Obama têm ocupado minha mente.

Talvez você tenha ouvido falar que Obama é socialista. E também que é muçulmano [eu explico: é o que a campanha do McCain tem divulgado]. Você quer saber se existe muçulmano socialista. Existe! Mohamed Siad Barre, antigo ditador da Somália: 1991, quando foi deposto, marca a última vez que o país teve um governo livre. O major-general Barre concebeu algo chamado socialismo científico para enfrentar a crise econômica do país. ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO AGORA? Barre desencorajou o tribalismo, embarcou num ambicioso programa de alfabetização da população nômade (leia-se Somália Real) [eu explico: McCain e Palin vivem dizendo que a "América Real", a das cidadezinhas "cristãs e trabalhadoras" do interior, vota com os republicanos; só conseguiram ofender o país todo: vê-se em todo blog político comentários de gente que se diz da Virgínia Falsa, do Falso Colorado, do Missouri Falso etc.], sentou com americanos e soviéticos para negociar, sem condições prévias [eu explico: Obama caiu na asneira de dizer que se sentaria com os inimigos dos EUA para conversar sem pré-exigências; foi um deus nos acuda! E agora o Pentágono considera "conversar" com o talibã...].

Preste atenção em nosso futuro, América.

(Meus editores se preocupam -- como eles se preocupam -- com que você ache que eu esteja falando seriamente desses "cripto-terroristas vermelhos" [eu explico: é o papo recorrente de McCain/Palin]. Mas você sabe que eu estou piscanu enquanto estou escrevenu, num sabe?)* [eu explico: a Sarah Palin come os "Gs" no fim do gerúndio dos verbos, como em winking ou writing; anúncio do Obama lançado em 28/10 mostra vídeo antigo do McCain dizendo que, como não entende muito essa "coisa de economia", escolheria um vice que entendesse; após as palavras “a escolha dele”, aparece a Palin dando sua famosa piscadela do debate dos vices, e a voz do anúncio diz: “a escolha é sua” -- muito bom mesmo o anúncio, a Fox News tá enfurecida!; é o primeiro anúncio do Obama que cita a Palin – veja abaixo]

Fim do texto! Ufa!



Mas o ponto é: o Draper gira a metralhadora para todos os lados, o que analistas de política com um mínimo de credibilidade devem mesmo fazer. Ele publicou matéria sobre a campanha do McCain na revista do NYT mostrando a tibieza de seus organizadores. E publicou um post cirúrgico sobre o Obama (meu deus, será que no domingo a NYTM vai ter matéria sobre a campanha do Obama???)

Pois ele diz que Barack Obama é um verdadeiro Niccolo Machiavelli, com toda a frieza que isso exige, tendo deixado muitos sentimentos feridos para trás desde as primeiras campanhas em sua Chicago natal. Draper não conseguiu fontes que se abrissem com ele: Obama parece "blindado"!

Andei lendo muito também sobre McCain, e vi um documentário do Frontline/PBS (veja o vídeo abaixo, mas aviso: é enorme) do qual entendi o seguinte: embora Obama tenha pisado na política, McCain pisou... em mulheres. Deixou a primeira, que o esperou por mais de 5 anos até que voltasse da prisão vietnamita, assim que voltou: ela tinha sofrido um acidente e andava toda troncha. Mas... perdeu! Ele se apaixonou pela Cindy, filha de rico engarrafador de cerveja, que financiou suas aventuras políticas -- e as dívidas de jogo. Ele é 20 e tantos anos mais velho do que a moça.



Ele ganhou seu primeiro milhão -- obsessão dos americanos -- com o golpe do baú. Barack Obama ganhou o primeiro milhão com um livro de sucesso -- e escreveu outros depois que o tornaram rico-de-marré-deuci. Michelle é advogada bem-sucedida formada em Harvard, com vida financeira própria: sempre ganhou mais que o maridão!

Fora a academia da Força Aérea e a Guerra do Vietnã, o emprego do McCain quando voltou herói do Vietnã era acompanhar parlamentares de Washington em suas viagens, e deixava corações partidos em cada lugar. Mulherengo famoso: as americanas acham o gajo lindo... Mais: o pronto-socorro de seu bairro em Washington tem 3 registros de atendimento da Cindy com machucados que indicam violência. Pode ser tudo mentira, em eleição rola muita difamação, mas já em 1992, numa viagem de trem da campanha ao Senado, ele xingou a pobrezinha de "trollop" e "cunt" (prostituta e "b@#$%ceta) na frente de repórteres! Já confessou que não sabia que a mulher era viciada em analgésicos até que ela foi parar numa clínica de recuperação. Ela não aparecia muito antes, mas nesta campanha, pela exposição da Michelle, foi forçada: parece não só infeliz, como muito entediada.

Bem, ninguém é perfeito, todo mundo é mau-caráter, mas prefiro o Obama 1 milhão de vezes! Espero que mais de 70 milhões também o prefiram na terça-feira.

* ATENÇÃO: pode ser que comer o "G" não seja representado exatamente assim; pode ser algo mais sutil, como o sotaque mineiro, que come a última sílaba; não conheço os sotaques americanos o suficiente para dizer exatamente como soaria: apenas interpretei.

3 comentários:

Sunny disse...

O risco é que há gente que pensa que o colunista está falando SÉRIO. Ironia não é bem o forte daquele povo.
A minha frase do dia está no artigo do Roger Cohen: "A presidência de Bush engendrou o improvável: subverteu o mercado livre do capitalismo e as liberdades essenciais - os distintivos da nação."
E agora, José?

mari disse...

Pois é, e fui obrigada a explicar tanta coisa que acabou perdendo mais ainda o tom irônico... Mas a imprensa daqui tá ignorando completamente a enxurrada de gozação que rola na eleição americana em cima do discurso McCain/Palin...

mari disse...

E a frase do Cohen é perfeita, resumiu a eme que o Bush fez!

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