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domingo, 8 de maio de 2011

Amal dá um pau na CIA

Do blog Sem Fronteiras, do Maierovitch (8/5/2011):

Viúva de Bin Laden faz revelações bombásticas que colocam CIA em embaraço

–1. Osama bin Laden, 57 anos, casou cinco vezes. Segundo estimam os serviços de inteligência do Ocidente, teve de 18 a 24 filhos. Quanto aos netos, perto de 80.

Seu último casamento foi com Amal Ahmed Abdulfattah em 2002, quando estava sob proteção tribal.

Na ocasião, Amal, nascida no Iêmen, tinha 19 anos de idade.

Como todos lembram, depois dos ataques covardes de 11 de setembro de 2001, a Central Inteligence Agency (CIA), totalmente desmoralizada, começou a vazar informações para mostrar que tinha boas pistas para chegar à captura de Bin Laden.

Uma pista “plantada” na mídia pela CIA dizia respeito ao precário estado de saúde de Osama bin Laden.

Para a CIA, o terrorista tinha insuficiência renal e necessitava se submeter a hemodiálises. Assim, diziam os 007 da CIA todos os hospitais do Afeganistão e Paquistão estavam sob controle.

Com o passar do tempo e nada de Bin Laden aparecer em hospitais, a CIA colocou na mídia a informação de que na caverna onde se escondia o terrorista havia um equipamento de hemodiálise.

Amal, que saiu ferida na perna (ou pé) quando do assalto à casa onde se escondia Bin Laden, prestou declarações às autoridades paquistanesas e a CIA recebeu algumas informações desmoralizantes. Ela estava no dormitório com Bin Laden e disse que tinham acabado de apagar a luz para dormir quando o casal ouviu disparos no primeiro andar da casa.

A viúva Amal disse que Bin Laden gozava de ótima saúde e plena mobilidade. E que bem antes de 11 de setembro de 2001 o terrorista tinha tido problemas com os rins, mas, depois de uma cirurgia realizada em Kandahar, ficou curado. E Bin Laden morava em Kandahar quando fez a mencionada cirurgia.

Como se percebe, as informações espalhadas pela CIA, logo depois dos covardes ataques de 11 de setembro e sobre Bin Laden, eram mentirosas.

Amal disse que Bin Laden não tomava remédios para tratamento dos rins. Afirmou, no entanto, que o marido comia muita melancia e dizia ser um “ótimo remédio para evitar problemas com os rins”.

–2. Do relato de Amal às autoridades do Paquistão, a CIA já está ciente que Bin Laden estava nas montanhas de Tora Bora em 2001 quando os EUA e aliados promoveram intenso bombardeamento, inclusive com bombas penetrantes para alcançar cavernas.

Para a viúva Amal, o terrorista Bin Laden teve muita sorte ( Alá é grande, teria dito em relato feito a ela) e quase foi atingido pelas bombas.

Depois de fugir de Tora Bora, sempre segundo Amal, o príncipe do terror ficou sob proteção tribal, na fronteira entre Afeganistão e Paquistão.

Em 2003, Bin Laden deixou a proteção tribal e foi morar no Paquistão. E Bin Laden, consonte Amal, escolheu a pequena cidade de Chak Shah Mohammed Khan para morar. Essa cidade é vizinha a Haripur (consta do mapa), ou seja, fica cerca de quarenta minutos de automóvel de Islamabad, capital do Paquistão.

A mudança para a cidade de Abbottabad deu-se no final do ano de 2005. E a viúva Amal destacou que Mohammed Arshad, seguidor fiel de Bin Laden, comprara, em 22 de janeiro de 2004, um terreno em Abbottabad, no bairro de Bilan Town. E nesse terreno foi erguida a casa onde Bin Laden restou morto no dia 1 de maio passado.

PANO RÁPIDO. Em razão do teor do depoimento da viúva Amal, o governo Barack Obama, conforme ontem este blog Sem Fronteiras de Terra Magazine informou, quer a sua extradição por cumplicidade.

–Wálter Fanganiello Maierovitch–

quarta-feira, 4 de maio de 2011

E essa, agora? Paquistão ajudou mesmo!

As extraordinárias montanhas Karakoram
e a estrada paquistanesa que leva à China 
Mas fica bem quietinho para evitar a fúria alkaidista! Muito interessante a matéria da Strategic Review! 


Osama: morte intrigante (e oportuna)

MK Bhadrakumar, Strategic Review, 3/5/2011

Tradução: @VilaVudu

Os EUA procuram desesperadamente meios e modos para mitigar o isolamento regional de Israel, no contexto dos levantes populares no Oriente Médio.

Considerem a ironia da coisa. Osama bin Laden foi finalmente apanhado, não em áreas selvagens e sem lei do Afeganistão, mas na aprazível cidade de Abbottabad, a menos de 50 quilômetros de distância dos quartéis militares em Rawalpindi. Desde os tempos da colonização britânica, Abbottabad é tradicionalmente cidade de alta concentração de militares aposentados. Há ali uma base da Segunda Divisão Norte do Exército do Paquistão. A casa de Bin Laden, de dois andares, com muros de mais de 3m de altura no distrito residencial de Abbottabad, a poucas centenas de metros de um quartel, tem todas as características de “casa de segurança” da inteligência do Paquistão.

Make no mistake (como gosta de dizer o presidente Obama), sobre esse caso: a operação para matar bin Laden foi operação conjunta de forças especiais do Paquistão-EUA. Não há meio concebível pelo qual os americanos conseguiriam andar naquela região do Paquistão, sem conhecimento da inteligência local (além do mais, Abbottabad é passagem da sensível “rota” até a estrada Karakoram que leva à China). Em nenhum caso os EUA teriam acesso à informação de inteligência “em tempo real” de que bin Laden estaria nos arredores de Abbottabad, sem envolvimento direto das agências paquistanesas.

Mas a grande pergunta é por que, afinal, o comando militar do Paquistão teria decidido entregar bin Laden – e a ocasião da entrega. Tudo depende da resposta que se dê a essa questão. Para responder, é preciso considerar que bin Laden sempre foi “a carta trunfo” com que contavam os militares paquistaneses, a ser jogada em momento oportuno. Falando em termos históricos, a inteligência e os militares paquistaneses sempre cuidaram de modular muito atentamente suas relações de trabalho com o Pentágono e a CIA. Muito evidentemente, os militares paquistaneses entenderam que um favor prestado ao presidente Barack Obama, nesse preciso instante, aumentaria muito as possibilidades de obter bom negócio, no “retorno”.

A opinião pública nos EUA já está definitivamente contra a guerra do Afeganistão e absolutamente insatisfeita com o modo como Obama administra o conflito. Obama carece desesperadamente de alguma história de “sucesso” no Hindu Kush. E bin Laden é questão de alto conteúdo emotivo para o público norte-americano. Daqui em diante, por algum tempo, Obama surfará gorda onda de fervor patriótico nos EUA, de onde podem advir dividendos interessantes com vistas à reeleição em 2012.

No que tenha a ver com a liderança dos militares paquistaneses, o que mais interessa nesse momento é que começa a delinear-se o fim da guerra do Afeganistão. Nunca antes o Paquistão esteve tão próximo de alcançar o seu objetivo, de conseguir “profundidade estratégica” no Afeganistão – o que tem a ver com reintegrar os talibãs à estrutura de poder em Kabul. Para conseguir isso, o consentimento dos EUA é pré-requisito vital. E, ultimamente, tem havido tensões sempre crescentes nos contatos entre militares e inteligência dos EUA e do Paquistão. O assassinato de bin Laden é como um teste limite, para que os EUA possam aferir a confiabilidade, como aliados, dos militares paquistaneses. Em resumo: serviço feito e entregue, os militares paquistaneses passam a esperar a recompensa que Obama lhes deve.

Não cabe dúvidas de que Obama terá de recompensar o risco grave que os militares paquistaneses assumiram, ao aceitar colaborar na ação para matar bin Laden. É praticamente certo que a al-Qaeda atacará com fúria o Estado paquistanês, na sequência do que será definido como ato de “traição” a bin Laden cometido pelos militares paquistaneses. Outra vez, o xis da questão está em que bin Laden é questão também altamente emocional para o povo paquistanês, e as circunstâncias violentas em que foi morto podem criar situação política explosiva. Ninguém duvide que Obama terá de recompensar o Paquistão, sobretudo os militares, assegurando-lhes o apoio dos EUA, que tanto fizeram por merecer.

Os vários grupos guerrilheiros que operam nas áreas tribais da região de fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, que sempre sustentaram a al-Qaeda, também buscarão vingança contra os militares paquistaneses. Claro que os militares paquistaneses, tradicionalmente cautelosos, sopesaram os prós e contras, antes de tomar decisão que, como todos sabiam, desencadearia tempestades terríveis na opinião pública local. 

Mas a autoconfiança também se explica, de certo modo, dado que desde ontem ao final do dia os partidos paquistaneses do “Islã Pasand” também fazem jus às recompensas, porque são patrocinados pelo establishment militar (e altamente vulneráveis a chantagem política). Mais uma vez, e retórica à parte, as elites políticas e a aristocracia feudais paquistanesas aí estão, como sempre, mendigando qualquer apoio dos EUA, por mínimo que seja. Em nenhum caso se atreveriam a terçar lanças com os militares sobre questão de que depende a própria existência daquelas elites políticas e aristocracia feudais.

Por tudo isso, é sumamente significativo que a declaração de Obama sobre o assassinato de bin Laden tenha deliberada e declaradamente reduzido a importância da cumplicidade dos militares paquistaneses na operação das Forças Especiais. Significa que Obama vê o quanto é criticamente importante para os dois lados que se preservem relações de trabalho produtivas entre EUA e os militares paquistaneses, no difícil período que se inicia. Por isso, é importante que Washington não se ponha a dizer coisas que criem problemas locais para os militares paquistaneses ou que tornem a situação ainda mais precária para os generais em Rawalpindi.

E o que significa, para a segurança regional, essa espécie de condomínio que EUA e Paquistão começam a construir? Devem-se considerar três fatores. 

Primeiro, Obama tem agora mão relativamente livre para implantar sua estratégia afegã. E EUA e Paquistão, agora, têm um ponto de contato, dado que EUA e Paquistão querem que a guerra do Afeganistão acabe imediatamente. 

Mas a prioridade de Obama é deixar no Hindu Kush (região onde se cruzam fronteiras de China, Rússia e Irã) uma presença militar de EUA e OTAN, de longo prazo – prioridade que se integra nas estratégias globais dos EUA –, mas sem que soldados norte-americanos e europeus lá tenham de ficar, morrendo e inflamando a opinião pública nacional nos países ocidentais. 

Por seu lado, o Paquistão deseja a reintegração dos Talibã. No pé em que estão hoje, são objetivos conciliáveis. Pode-se agora esperar que EUA e Paquistão cheguem mesmo a alcançar um modus vivendi no qual sejam atendidos e acomodados os interesses dos dois lados.

Segundo, as prioridades de política externa de Obama estão sendo dirigidas para o Oriente Médio, área pivô decisiva para as estratégias globais dos EUA para o século 21. O Paquistão pode desempenhar papel importante na defesa da segurança dos regimes “pró-ocidente” em toda a região do Golfo Persa. Já há na ativa cerca de 30 mil mercenários paquistaneses (incluído aí alto número de ex-soldados), operando hoje na segurança do ditador sitiado do Bahrain. 

A situação de máxima ameaça para a estratégia regional dos EUA no Golfo Persa acontecerá se o regime na Arábia Saudita começar a ser seriamente ameaçado. 

Os EUA não podem ocupar militarmente e ostensiva e diretamente a Península Arábica, onde estão Meca e Medina. Mas o Paquistão – país de sunitas, muçulmanos pios, com exército gigante e poderoso, pode. 

Quer dizer, os EUA veem o Paquistão, depois de varridas de lá as preocupações com a Al-Qaeda e a guerra afegã, como eficiente “provedor” de segurança para todos os aliados dos EUA no Golfo Persa.

Desnecessário dizer que a Arábia Saudita sente-se muito aliviada com a eliminação de bin Laden nesse preciso momento crucialmente decisivo. (Fator interessante a considerar é o muito que o regime saudita pressionou a liderança militar paquistanesa para que se livrasse de bin Laden.)

Terceiro, as políticas dos EUA de intervencionismo e unilateralismo ganham importante impulso. O assassinato de bin Laden é como o acerto de contas de justificação, uma espécie de vingança, da chamada “guerra ao terror” em que embarcou George W. Bush. Sob o pretexto de combater as forças do terrorismo, os EUA puseram-se a invadir estados soberanos – Iraque e Líbia. 

Agora, fosse qual fosse a oposição que a opinião pública norte-americana já farta de guerras tivesse a fazer contra o establishment em sua marcha imperial, acabará dissipada no novo clima de patriotismo fanático que embriaga os EUA [e embriaga também todos os jornalistas e comentaristas brasileiros da Rede Globo, mais ‘nacionalistas patrióticos’ e fanáticos a favor dos EUA, do que qualquer Sarah Pallin! [risos, risos] (NTs)]. 

À medida em que a crise econômica agrava-se e aprofunda-se no mundo capitalista, sempre lá estará, ativada, a possibilidade de inventarem-se guerras em países periféricos. A história moderna está cheia de exemplos. A opinião da direita nos EUA ganhará espaço, no clima de guerra; e ela sabe, como ninguém, exigir intervenções militares cada vez mais robustas.

Para dizê-lo em poucas palavras, a probabilidade de ocupação prolongada no Afeganistão e no Iraque, e de erupção de conflito militar com o Irã, aí estão e são grandes. 

Os EUA procuram desesperadamente meios e modos para mitigar o isolamento regional de Israel, no contexto de levantes populares no Oriente Médio. O processo de paz no Oriente Médio está num beco sem saída. Simultaneamente, a chamada “Primavera Árabe” ameaça semear em vários pontos revoluções semelhantes à egípcia, onde o regime sucessor, atento à opinião pública, já trabalha consistentemente de costas para as políticas pró-EUA e pró-Israel que fizeram a fortuna de Hosni Mubarak. 

Pelos mesmos motivos, os governos da Síria e do Irã passarão a enfrentar descomunal pressão, pelos EUA, nos próximos meses. 

Interessa às políticas regionais dos EUA no Oriente Médio muçulmano forçar a polarização entre grupos sectários – pintando os conflitos como se algum “salafismo” estivesse sendo atacado por algum “xiismo” ressurgente. É truque garantido para desviar a atenção dos processos históricos que, sim, ameaçam a sobrevivência dos regimes pró-EUA na região. Já se veem os primeiros sinais do “revide contrarrevolucionário”. O assassinato de bin Laden, nessa conjuntura crucial, livra os EUA do peso da guerra afegã e prepara o cenário para a nova guerra da hora, no processo para inventar um “novo Oriente Médio”. O assassinato de bin Laden não poderia ter sido planejado para ocorrer em momento mais oportuno.

O discurso pró-tortura se alastra

Imagem daqui
Tuitei ontem post do Andrew Sullivan, do Daily Beast, desmontando a "Big Lie" sobre o peso da tortura na descoberta do mensageiro de bin Laden, personagem-chave para a execução do terrorista (aqui, aqui e aqui). Peso que, diga-se, pelo que li até agora, foi NENHUM. Na segunda (2/5), postei lá no Facebook:
"Mais uma: John King na CNN insiste e ouve de ex-diretor da CIA que a informação sobre a casa de bin Laden veio do interrogatório de um prisioneiro pela CIA. Tá posta a mesa para a defesa da tortura à Langley. 
Hoje, é a Fair que traz o assunto. Na minha humirde, um dos mais importantes do episódio. Se o waterboarding for considerado prática-chave para o que quer que seja, viro ermitã DE VEZ. Nem considero a matéria da Fair espetacular (falta-lhe indignação), mas traduzi porque enumera as várias menções ao assunto (embora tenha omitido a do King, que eu vi) até por gente insuspeita, como o Dana Milbank do W.Post; pelo conjunto da obra, ele tinha obrigação de apurar antes de escrever asnice. Bem, eis a matéria da Fair:

O waterboarding "funcionou"?
Mídia passa mensagem pró-tortura

Alguns dizem que as informações que levaram ao esconderijo de Osama bin Laden no Paquistão foram geradas pelo uso de tortura. Mas as evidências disponíveis até o momento não confirmam isso.

Defensores direitistas da tortura falam em vingança. Na Fox News, no programa O'Reilly Factor (2/5/11), o deputado Peter King (R-NY) anunciou que
obtivemos informações vários anos atrás, informação vital sobre o estafeta de Obama [sic] [gente, como pode um ato falho assim tão evidente?]. Obtivemos a informação através da simulação de afogamento. Assim, para aqueles que dizem que "waterboarding" não funciona, que deve ser interrompido e nunca mais usado -- com ele tivemos a informação vital que conduziu diretamente a bin Laden.
O'Reilly proclamou: "Você não vai ouvir isso em outras redes, eu garanto."

Na verdade, a falácia de que essa tortura pode ter revelado a identidade do mensageiro de confiança de bin Laden tem sido muito ouvida. No CBS Evening News (2/5/11), o repórter David Martin disse: "Informações saíram de prisões secretas da CIA onde os prisioneiros da al-Qaeda foram waterboarded".

E o repórter Jonathan Karl, do ABC World News, recorreu à perícia de Dick Cheney (2/5/11):
Karl: Uma questão-chave, sugere Cheney: o programa avançado de interrogatórios da CIA, que Obama suspendeu porque incluiria tortura. Uma dica precoce levando ao mensageiro de bin Laden veio de alguns desses interrogatórios.
Cheney: Tudo que sei é o que vi no jornal, mas não seria surpreendente se, de fato, o programa produziu resultados que, em última análise, contribuíram para o sucesso desse empreendimento.
O Los Angeles Times (2/5/11) relatou:
Informações cruciais sobre o mensageiro de confiança do complexo surgiu anos atrás em interrogatório da CIA com o cérebro do 11/9, Khalid Sheikh Mohamed, disse o funcionário. Isto é significativo porque o cérebro da al-Qaeda foi submetido a afogamento e outros métodos brutais de interrogatório.
O colunista Dana Milbank, do Washington Post, observou (3/5/11) que Obama matou Osama Bin Laden "com um aparente apoio da administração Bush, o programa de interrogatórios". E no Today da NBC (3/5/11), Jim Miklasziewski relatou:
Autoridades dos EUA disseram ao NBC News que o cérebro por trás do 11/9 Khalid Sheikh Mohammed, enquanto sob custódia da CIA, forneceu informações fundamentais sobre o mensageiro de bin Laden. Obtidas, por vezes, com técnicas de interrogatório agressivas, como o afogamento.
Mas os detalhes conhecidos até agora não apoiam o argumento de que a tortura tenha produzido qualquer informação-chave. Como Jane Mayer, da New Yorker, escreveu (2/5/11):
Se o interrogatório da CIA tivesse sido suficiente, o governo dos EUA teria localizado bin Laden antes de 2006, quando terminou a custódia da CIA desses chamados "detentos de alto valor". Este cronograma não parece oferecer grande apoio ao discurso pró-tortura.
O blog Think Progress (3/5/11) observou que funcionários do governo contestaram essa idéia de que as informações críticas vieram de sessões de tortura:
Hoje de manhã, no Morning Joe da MSNBC [3/5/11], John Brennan, conselheiro sobre contra-terrorismo de Obama, confirmou que as informações obtidas ao longo de nove anos não vieram de waterboarding, mas foram montadas a partir de múltiplas fontes.
O New York Times ( 4/5/11), entrevistando fontes de inteligência, informou que "um olhar atento aos interrogatórios de prisioneiros sugere que as técnicas duras desempenharam pequeno papel, no máximo, na identificação do mensageiro de confiança de bin Laden."

Mais importante, o Times observou que "dois presos submetidos aos mais duros tratamentos -- incluindo Khalid Shaikh Mohammed, que foi waterboarded 183 vezes --, enganaram repetidamente seus interrogadores sobre a identidade do mensageiro".

Telegrama da Associated Press (2/5/11) informou que
Mohammed não revelou nomes ao ser submetido à técnica de simulação de afogamento conhecida como "waterboarding", disse o ex-funcionário. Ele o identificou muitos meses mais tarde, sob interrogatório normal, segundo ele, deixando mais uma vez em debate se as técnicas duras são ferramenta valiosa ou tática desnecessariamente violenta.
Este "em debate" é estranho, dado que as provas sugerem que o lado pró-tortura do "debate" pouco tem para apoiar sua defesa. E essas discussões servem para reafirmar um discurso da mídia que tenta normalizar a tortura, tornando-a um debate que prioriza os resultados -- ou seja, será que funciona? -- sobre a legalidade e a moralidade. (Ver Extra!, 1-2/02).

Kiran Chetry, da CNN (3/5/11), perguntou o seguinte à ex-conselheira de segurança nacional de Bush, Condoleezza Rice:
Coisas como interrogatório avançado perderam apoio. O atual governo disse que suspendeu essas práticas controvertidas, como a simulação de afogamento, que eram aceitas no governo Bush. Outra coisa são os black sites, locais de interrogatório da CIA ao redor do mundo. Tudo isso recebeu inúmeras críticas. Quanto mais vazam informações sobre se essas estratégias desempenharam papel fundamental para matar Osama bin Laden, o atual governo deveria reavaliar o governo Bush?
A par de reavaliar a administração de Bush, há muitas vozes na mídia sugerindo que deveríamos reavaliar a questão da tortura como prática aceitável para o governo dos EUA. Só nos resta esperar que os meios de comunicação tratem o assunto com mais cuidado do que no passado.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Farsas e humilhações

Vamos especular um pouco sobre efeitos da operação e a situação do ISI, cuja sede fica em Islamabad, pertinho de Abbottabad, onde Bin Laden foi fuzilado. Primeiro, o que seria mais últil na chamada "guerra ao terror", prender e julgar Bin Laden com grande estardalhaço ou jogá-lo ao mar? Se eu fosse um jovem jihadista cheio de ódio para espalhar é lógico que ficaria bem desestimulado com a exposição de meu líder num tribunal internacional -- lembram da triste figura do Saddam Hussein? Não é suspeito esse alegado fuzilamento? Sem um corpo para exibir há prova tangível ou é tudo uma grande farsa? Só serve para barganha política, porque nosso jovem jihadista pode bem estar a essa altura com mais ódio ou pode simplesmente dizer, ah, mais uma mentira dos americanos.

E a situação dos paquistaneses? Gente, que humilhação! Vi na Jazira um cidadão dito responsável por relações entre paquistaneses e britânicos (um velhinho quase gagá, diga-se) afirmando que os paquistaneses ajudaram na operação. Obama e John Brennan, conselheiro da Casa Branca, garantem que nenhum país foi informado previamente da operação. "Mas nossa amizade com o Paquistão é estreita", diz Brennan. Hahaha. Tá, entendo ser impossível confiar no ISI, são corruptos e golpistas, alguns deles devem ser até alqaidistas, mas pelo menos o presidente e um milico de alta patente deveriam ter autorizado, não? Aqueles malucos têm bomba, caramba! Isso é de uma insensatez sem tamanho. Aliás, nada faz sentido ali naquela região.

Ah, e ver a cara de moleque ressentido do Karzai na TV, tá vendo, eu disse que o Afeganistão "não é um lugar de terrorismo" foi engraçado demais. Ah2: e os setoristas da Casa Branca interessados nos detalhes dos procedimentos religiosos antes de jogarem o corpo do Bin Laden ao mar na entrevista do Brennan? Vou te contar. Imprensa beata é dose.

O mundo em 2011 mais pra 1011

Azenha diz que Osama caminhava para a irrelevância. CNN diz que Osama nem comandava mais as operações. Acho que tudo isso se aplica a um quase homônimo, o Obama. Vai poder faturar em cima. (Bem, pelo menos não é o Bush...) O mundo em 2011 tá mais pra 1011: casamento real, beatificação de ex-papa, execução chamada de "justiça", presos políticos nas masmorras. O texto abaixo, que @VilaVudu traduziu, fala um pouco do futuro da Qaeda.

(Ei, acho o Osama um fanático detestável, viu? Ei2, clique na imagem que tem animação.)

Al-Qaeda pronta para reinicar a guerra

3/5/2011, Syed Saleem Shahzad, Asia Times Online

Islamabad. A partir de hoje, a Al-Qaeda passa a ser comandada por um colegiado de altos comandantes que já estava definido desde muito antes da morte de Osama bin Laden, assassinado nas primeiras horas de ontem, em ataque de forças especiais do Paquistão e EUA, em Abbottabad, cerca de 65 quilômetros ao norte de Islamabad, capital do Paquistão.

O assassinato de Bin Laden, 54 anos, cuja cabeça valia prêmio de 50 milhões de dólares, marcará, segundo informantes da organização ao jornal Asia Times Online, o início da transferência do teatro de guerra, do Afeganistão para o Paquistão.

Contatos do jornal Asia Times Online na área tribal do Waziristão Norte – celeiro de militantes – confirmaram que já houve várias reuniões na cidade de Mir Ali, para formular estratégias. Todos confirmaram imediata ação de retaliação contra o Paquistão e o fim de todos os acordos de cessar-fogo firmados com os militares paquistaneses e ainda vigentes.

Os EUA procuraram por Bin Laden, sempre sem sucesso, desde que ele deixou o Afeganistão, quando os EUA invadiram o país, em 2001, para guerra de extermínio contra os Talibã, em retaliação pelos ataques do 11/9/2001 em Nova Iorque e Washington. Bin Laden e sua al-Qaeda planejaram aqueles ataques, durante o tempo que viveram como hóspedes dos Talibã.

“Posso informar ao povo dos EUA e do mundo, que os EUA executaram operação que matou Osama bin Laden” – disse da Casa Branca o presidente Barack Obama, também comandante-em-chefe dos exércitos dos EUA. – “Houve troca de tiros, antes de matarem Osama bin Laden e assumirem a custódia do cadáver” – Obama prosseguiu. – “A morte de bin Laden assinala o mais importante feito de nossa nação, até o presente momento, em nossos esforços para derrotar a al-Qaeda.”

Há notícias de que também foram assassinados um dos filhos de bin Laden, duas de suas esposas e vários auxiliares, no ataque que incluiu helicópteros armados com metralhadoras.

O assassinato de Bin Laden foi confirmado pela inteligência do Paquistão. O tenente-general Ahmad Shuja Pasha, diretor-geral do Inter-Services Intelligence (ISI), disse que a inteligência do Paquistão sabia do plano e participou de todo o processo.

Os EUA puseram em alerta todas as embaixadas no mundo e avisaram os cidadãos, da possibilidade de haver retaliações. Esses alertas confirmam informações que Asia Times Online obteve de várias fontes, segundo as quais o assassinato de Bin Laden provocará o reinício de ações do terrorismo internacional contra capitais do ocidente, suspensos desde o início da grande revolta árabe de 2011.

No final do mês passado, Bin Laden avisou que a al-Qaeda desencadearia um “inferno nuclear” se ele fosse capturado, segundo telegramas diplomáticos secretos publicados por WikiLeaks.

Obama disse que a CIA sabia desde outubro de 2010 que estava mais próxima de encontrar a trilha que a levaria a Bin Laden, e que o alvo já aparecia nos radares da inteligência desde o início de 2011, notícia inúmeras vezes divulgada por Asia Times Online:

“Depois de prolongada pausa, a CIA-EUA reiniciou várias operações clandestinas nas montanhas escarpadas do Hindu Kush, pelo Paquistão e Afeganistão, seguindo uma repentina onda de informes de que Osama bin Laden, líder da al-Qaeda, andaria pela área, indo e vindo nas últimas semanas, para várias reuniões de alta cúpula em redutos dos militantes” (“Bin Laden volta a disparar os alarmes”, 24/3/2011, em português).

Os próximos passos

A partir dos levantes populares no Oriente Médio e Norte da África, Bin Laden entrou em ação, para construir uma frente unida dos quadros islâmicos do Paquistão e do Afeganistão, na batalha afegã contra os EUA. Por isso, viajou recentemente ao Afeganistão, para reunião com Gulbuddin Hekmatyar, o legendário comandante mujahid afegão e fundador e chefe do partido político e grupo paramilitar afegão Hezb-e-Islami, e vários outros altos comandantes jihadis. Acredita-se que se tenha deslocado há cerca de dez dias para Abbottabad, de onde estaria às vésperas de sair, várias fontes informaram a Asia Times Online.

As mesmas fontes dizem que o conselho (shura) de comandantes da al-Qaeda passam automaticamente a comandar a organização, até que, adiante, escolha-se outro comandante. Há à espera uma nova geração de comandantes, entre os quais Sirajuddin Haqqani, Qari Ziaur Rahman, Nazir Ahmad e Ilyas Kashmiri, que se uniram à al-Qaeda.

Ao longo dos últimos anos, Bin Laden já se convertera mais em figura popular icônica e deixara a função de comandante de guerra – muitas ações já estavam entregues ao comando de seu representante, Dr. Ayman al-Zawahiri, egípcio, e a outros ideólogos. Por tudo isso, nada autoriza a pensar que haja alguma modificação importante nos processos e mecanismos operacionais.

Consideradas as informações e os muitos contatos que esse jornal mantém com líderes da al-Qaeda, não temos qualquer dúvida de que a Operação Osama Bin Laden marca a transferência do principal teatro de guerra, que sairá do Afeganistão e invadirá o Paquistão; e que todos os esforços já empreendidos para reconciliar os militantes paquistaneses e o governo do Paquistão voltarão à estaca zero. A partir de agora, a al-Qaeda passará a ter como inimigos declarados, além dos EUA, também todo o establishment militar paquistanês.
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