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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Amorim, sereno: paz e cooperação!

Roberto Stuckert Filho/PR (8/8/11)
Meu amado ministro mandou muito bem! E a Dilma, mais ainda ao escolhê-lo!

(via @VilaVudu)

***

Brasília, 08/08/2011 – A presidenta da República, Dilma Rousseff, empossou nesta segunda-feira à tarde o novo ministro da Defesa, Celso Amorim, em solenidade realizada no Palácio do Planalto. Confira a íntegra do discurso de Amorim por ocasião da cerimônia de posse no cargo. O texto não inclui improvisos feitos ao longo da fala.

Palavras do ministro de Estado da Defesa, Celso Amorim, por ocasião da cerimônia de posse no cargo.

***

Antes de mais nada, agradeço o honroso convite da presidenta da República, Dilma Rousseff, para assumir a pasta da defesa.

Sou grato pela confiança e pela oportunidade de participar dessa importante etapa da longa transição do Brasil rumo a uma sociedade mais livre, mais justa e mais igualitária.

Serei breve.

A realidade de uma política pública complexa e multifacetada como a Defesa não oferece espaço à pretensão.

De maneira serena, cabe a mim neste momento mais ouvir do que falar – sem com isso me furtar ao diálogo franco e transparente.

Identifico nos militares valores dignos de admiração:

- patriotismo;
- abnegação;
- zelo pela coletividade;
- respeito à hierarquia e à disciplina.

Graças a importantes iniciativas levadas a cabo em governos anteriores, e mais particularmente durante o governo do presidente Lula, o panorama da Defesa nacional é qualitativamente distinto do cenário em que nos encontrávamos no início da redemocratização.

Contamos com Forças Armadas profissionais e plenamente conscientes de sua subordinação ao poder democrático civil.

A Estratégia Nacional de Defesa e o Plano de Articulação e Equipamento da Defesa dela decorrente oferecem um horizonte de curto, médio e longo prazo para o setor.

Sob o signo da continuidade que caracteriza os estados que atingiram maturidade democrática, trabalharei para implementá-los.

Farei isso com espírito crítico e de maneira atenta aos ajustes e adaptações que se façam necessários.

Dedicarei esforços ao fortalecimento da indústria nacional de material de emprego militar e à ampliação da autonomia tecnológica de nossas Forças Armadas, em estreita coordenação com os ministérios do Desenvolvimento e da Ciência e Tecnologia.

O momento que vivemos em termos de política industrial reforça essa prioridade.

O aprimoramento da capacidade de operação conjunta entre marinha, exército e aeronáutica, a racionalização de processos e programas e o robustecimento da supervisão do Ministério da Defesa sobre as políticas setoriais das forças são compromissos do titular da pasta.

O Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas terá importante papel nesse processo.

O Instituto Pandiá Calógeras, a ser implantado com celeridade, será importante instrumento de reflexão sobre temas estratégicos e servirá para formar os futuros analistas civis de Defesa.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Mais diplomacia do amor! (Só penso naquilo...)

Para Amorim, é preciso diálogo para ter influência sobre Irã

Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil no Rio de Janeiro



Amorim foi chanceler durante os dois mandatos de Lula

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim acredita que o diálogo é a única maneira de influenciar o Irã, acusado por parte da comunidade internacional de violar direitos humanos e buscar desenvolver armas nucleares.

"Para você ter esse tipo de influência, você tem que ter um diálogo", disse Amorim em entrevista à BBC Brasil, afirmando que não é possível "bater forte e dialogar ao mesmo tempo".

O embaixador afirmou ainda que a aproximação com o Irã durante o governo Lula possibilitou que o Brasil intercedesse em casos como o de Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, e da francesa Clotilde Reiss, acusada de espionagem no país.

Ministro das Relações Exteriores durante os dois mandatos de Lula, Amorim recebeu a BBC Brasil em seu apartamento em Copacabana na última quarta-feira, um dia antes de o Brasil ter votado a favor da nomeação de um relator da ONU para investigar a situação de direitos humanos no Irã.

O voto favorável no Conselho de Direitos Humanos da ONU sinalizou uma mudança na posição do Brasil, que até então vinha se abstendo em decisões sobre o Irã.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - A presidente Dilma Rousseff deu sinais de que será mais dura na defesa de direitos humanos nos países com que o Brasil se relaciona. Antes de assumir o mandato, ela mostrou posição diferente da do presidente Lula ao falar sobre direitos humanos no Irã...

Celso Amorim - A manifestação dela nem foi sobre o Irã, foi específica sobre a situação daquela senhora, a Sakineh (Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento no Irã). Queira Deus que a situação dela melhore e que ela possa ser libertada. Não sei o que influiu no fato de ela não ter sido assassinada até hoje. Mas se teve uma coisa que contribuiu, foi o pedido do presidente Lula. Não terá sido a única.

Para você ter esse tipo de influência, você tem que ter um diálogo. Nós defendemos os direitos humanos ativamente. Atuamos em várias situações evitando agravamentos, inclusive ajudando a soltar pessoas. Outro dia, o presidente da sociedade baha’i me agradeceu porque fizemos gestões fortes em favor de baha’is condenados à morte. Nós tínhamos condições de fazer essas gestões. Se estivéssemos permanentemente condenando o Irã, sei lá se eles teriam resolvido atender a um pedido nosso. Eu tinha liberdade para pegar o telefone, como fiz, para falar com o ministro sobre a questão da Sakineh (...). Soltamos a (professora) francesa Clotilde Reiss – e foi o Brasil, não há a menor dúvida. Como conseguir isso se se assume uma postura só de condenação? Você tem que optar. Não dá para fazer as duas. Acho que o presidente (francês Nicolas) Sarkozy tentou fazer as duas, bater forte e dialogar ao mesmo tempo. Os iranianos não dialogaram.

BBC Brasil - A imprensa procura ressaltar as diferenças entre os governos de Dilma e Lula. Há uma continuidade na política externa do governo Dilma, ou ela está tomando rumos próprios?

Amorim - É bom que tome rumos próprios. Cada pessoa é uma pessoa, cada momento é um momento. O momento é da Dilma. Há continuidade nas linhas básicas, mas cada situação é uma situação. À medida que o Brasil se torna maior, ele não vai ter menos problemas, vai ter mais problemas. Os momentos variam, a sensibilidade pode variar em relação à maneira de fazer determinada coisa, e cada um fará a seu modo, isso é natural. Mas acho que em grande parte o desejo da imprensa de fazer uma separação é porque ela nunca aceitou o Lula. A verdade é essa. Nunca aceitou nossas atitudes independentes. Quando fomos à Síria a primeira vez, fui perguntado: “Mas vocês perguntaram a Washington se podia?” É achar que o Brasil tem que ser pequeno, caudatário. Nessa questão de direitos humanos, é perfeitamente respeitável a opinião da presidenta, até pela sensibilidade pessoal que ela tem para isso. Eu nunca fui torturado, mas devo dizer que o presidente Lula foi preso e eu perdi meu lugar na Embrafilme porque autorizei um filme que tratava de tortura durante o governo militar.

Mas quando você lê a mídia brasileira, pegam isso para dizer que o Brasil não tem que se meter com o Irã, não tem que se meter com o Oriente Médio. Eles querem o Brasil pequenininho. No máximo cuidando um pouco aqui na região, sempre com uma postura agressiva em relação aos fracos e submissa em relação aos fortes. Não é isso que queremos, e eu acho que a presidenta Dilma também não quer.

BBC Brasil - Como analista, como o senhor avalia as posições que o Brasil tomou em relação à Líbia, ao se abster no voto do estabelecimento de uma zona de exclusão aérea e ao pedir o cessar-fogo no país?

Amorim - Achei que foi um gesto correto, mas também corajoso, porque tomado na véspera da visita do presidente Obama. Havia a preocupação de proteger os civis. A tentação do lado ocidental é sempre agir com a força. A força às vezes tem que estar no horizonte, mas a melhor arma é aquela que você não precisa disparar. Como você disparou, a zona de exclusão aérea já está gerando reação. Primeiro, está fazendo do próprio Khadafi um mártir, e mostrando que ele está liderando uma luta antiimperialista. A Liga Árabe apoiou, mas quem está lá é França, Estados Unidos, Itália dando apoio logístico, Reino Unido... Então é um grupo de países ocidentais bombardeando árabes e muçulmanos. Pelas reações que leio nos jornais, isso já está tendo efeito no resto do mundo árabe.

Acho que nesses casos a gente não pode procurar apenas satisfazer a nossa consciência moral. Sim, deve satisfazê-la, mas de uma maneira que obtenha resultados reais, que melhore a situação dos líbios. E não simplesmente ir para casa e dizer, dei um tiro no malvado. Você não sabe se o malvado matou mais dez por causa do tiro que você deu.

BBC Brasil - O senhor acredita que as revoluções no mundo árabe vão representar uma grande transformação na geopolítica do Oriente Médio?

Amorim - Eu acho que sim. O caso da Líbia hoje é muito dramático, por causa do uso da força e da repressão do governo. Mas a Líbia não é um país com grande influência no Oriente Médio. Tem mais influência na África, na verdade, porque financiou muita gente, deu apoio a Mandela. Quem terá muita influência é o Egito. A maneira como as coisas caminharem no Egito terá uma grande influência no conjunto da região, principalmente na relação Israel-Palestina, que é o problema central. Essa mudança vai ter impacto no Oriente Médio e vai ter impacto no mundo. E é um fato novo. Isso pode soar meio chocante, mas a Líbia de certa maneira veio a calhar para os países ocidentais. Porque até então todas as rebeliões importantes estavam se realizando contra regimes apoiados ostensivamente pelo Ocidente. Egito, Tunísia, Iêmen, Bahrein, onde há bases americanas.

Embora Khadafi fosse ultimamente cortejado pelos ocidentais por causa do petróleo e outros interesses, não se pode dizer que ele é um regime apoiado pelo Ocidente. A Líbia tirou as atenções dos outros países. Não estou dizendo que o Ocidente tenha provocado isso. Mas veio a calhar, e é uma situação que ainda por cima permite dizer que os países estão lutando pelos direitos humanos.

BBC Brasil - Os países do BRIC apresentaram voto alinhado nas Nações Unidas. Houve articulação política para tomar uma decisão conjunta?

Amorim - Eu não estou mais envolvido, não posso dizer o que efetivamente aconteceu. Mas certamente deve ter havido muita consulta entre eles. E certamente a posição de um pode ter influenciado a de outro. Acho que a posição da Alemanha também teve deve ter tido influência e tornou a nossa posição mais confortável.

BBC Brasil - A posição de abstenção do Brasil pode ser prejudicial ao pleito do país por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU? O país não terá que tomar decisões mais firmes se for para o conselho?

Amorim - Fui muito perguntado sobre isso quando votamos contra a resolução do Irã. Ali era um caso diferente, porque tínhamos feito um esforço a partir do estímulo do Ocidente e recebemos uma reação que desconsiderou totalmente o que tínhamos feito. Tínhamos mesmo que votar contra. Mas vou repetir o que eu disse na época: se para entrar no Conselho de Segurança for preciso dizer sim a tudo, é melhor não entrar. Aquilo é para você levar a sua percepção do mundo. E a percepção do Brasil é basicamente a de tentar, sempre que possível, resolver as situações com alguma negociação.

BBC Brasil - E qual é o papel que o Brasil desempenha nesse novo panorama no Oriente Médio?

Amorim - Acho que o Brasil tem uma oportunidade. Do ponto de vista da relação com esses países, tem uma contribuição a dar, sobretudo se souber dar com humildade. Não pode chegar lá dizendo como as coisas têm que ser, mas pode se abrir, mostrar como nós consolidamos a democracia no Brasil, como foi o processo de uma Constituinte no Brasil. Nós também cometemos erros, não estou dizendo que a nossa experiência é perfeita, mas a democracia no Brasil está consolidada.

Ao ajudar e aumentar nossa presença, isso fortalece vários aspectos. Desde que começamos a aproximação com os países árabes, em seis anos o comércio se multiplicou por quatro vezes. A gente sabia que a parte comercial é importante, mas você não pode querer buscar só defender os interesses comerciais. As coisas vêm num conjunto.

Continua aqui com Obama, China etc.:
"O fato de ele não entender que o Brasil tem hoje um trânsito internacional mundial... Isso você vê na opinião das outras pessoas. Por que convidaram a mim e uma semana depois ao presidente Lula para falar na Al-Jazeera? Quando isso acontecia antes? O Brasil está ali, é tido como um exemplo."

quinta-feira, 24 de março de 2011

Adeus, diplomacia do amor!

Protestos em Teerã (14/2/2001, Haaretz/AP)
O Brasil, como se esperava, votou hoje contra o Irã -- ou seja, com os Estados Unidos -- no Conselho de Direitos Humanos da ONU pela instituição de relator especial para investigar violações. Celso Amorim deu entrevista ontem à Claudia Antunes, da Folha, e avisou: condenar é abrir mão do diálogo. E se vai ter de novo investigador no Irã (o último foi expulso em 1996) deveria ter também em Guantánamo, na Europa que esmaga imigrantes. Perfeito! Então, acho que isso indica mudança, sim, em nossa política externa. 

Na sessão, 22 países votaram a favor: Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, França, Guatemala, Hungria, Japão, Maldivas, México, Noruega, Polônia, República da Moldávia, Coreia do Sul, Senegal, Eslováquia, Espanha, Suíça, Ucrânia, Reino Unido e Irlanda do Norte, Estados Unidos e Zâmbia. Segundo a AFP, 14 países se abstiveram (Barein, Burkina Faso, Camarões, Djibouti, Gabão, Gana, Jordânia, Malásia, Maurício, Nigéria, Arábia Saudita, Tailândia, Uganda e Uruguai), enquanto China, Cuba, Bangladesh, Equador, Mauritânia, Rússia e Paquistão votaram contra. Reconheço que não estaríamos em companhia muito fácil de engolir nesse tema, mas em algum grupo estamos à vontade??? Já tem leitor lá na Folha chamando nosso histórico de votações pró-Irã de "atos infantis e estúpidos", num absoluto desconhecimento do significado de tais gestos. 

Adeus, diplomacia do amor e da inclusão, adeus abraço ao mundo, seja torto ou direito. 

Seja mal vinda, diplomacia da condenação! Seja mal vindo, alinhamento aos EUA! 

Vejam trecho da matéria da Folha sobre a votação:
O Brasil votou nesta quinta-feira a favor da criação de um relator especial para investigar as violações de direitos humanos no Irã, um voto que contraria seu histórico de dez anos de votos favoráveis ao país persa. O Brasil foi um dos 20 países a votar a favor da proposta do Conselho de Direitos Humanos da ONU, segundo confirmou o Ministério de Relações Exteriores à Folha.com. A criação de um relator especial não é uma condenação direta ao Irã, mas é um dos maiores gestos que o órgão pode tomar para pressionar o governo de um país -- com exceção da suspensão.
A diplomacia brasileira justificou seu voto dizendo ainda que o Irã não tem colaborado com a comunidade internacional, como antecipado pela Folha, no começo do mês. O país alega ainda que "a presente resolução é reflexo de uma avaliação compartilhada de que a situação dos direitos humanos no Irã merece a atenção do conselho".
Abaixo, trecho da entrevista com o Amorim (que curiosamente e erradamente, diga-se, na home não está linkada à matéria, somente na editoria Mundo. Amorim morreu mesmo para estes ingratos).
O Brasil parece disposto a votar no Conselho de Direitos Humanos pelo envio de um relator especial ao Irã. O sr. também votaria?
Provavelmente não. Se quisermos ser absolutamente coerentes tem que mandar um relator especial para o Irã, outro para Guantánamo, outro para ver a situação dos imigrantes na Europa. Se você for agir dessa maneira, eu até poderia ser a favor, mas acontece que não é assim. Quando fui ministro [do Exterior] do Itamar Franco, fomos a Cuba e eu obtive da liderança cubana um convite para [a visita] do alto comissário de Direitos Humanos [da ONU], que foi muito positiva até o episódio da avioneta [do grupo cubano-americano Irmãos para o Resgate, derrubada ao sobrevoar território cubano]. Mas eles nunca aceitariam o envio de um relator especial, porque achavam que o objetivo era indigitar Cuba. Quando nomeia um relator] você está cortando qualquer possibilidade de diálogo. As pessoas acham que sobre cada ação há apenas uma decisão moral. Não é, a decisão é também política, não no sentido de agir em interesse próprio, mas de saber se o resultado será o que você deseja.
Todo mundo criticou o presidente Lula, mas se há alguma pessoa que teve influência na não execução da Sakineh [Ashtiani, a iraniana condenada à morte por apedrejamento] foi ele. Outro dia estou no aeroporto e vem o presidente da comunidade Baha'i me agradecer, porque temia que eles [os sete líderes da religião presos no Irã] fossem condenados à morte e não foram. Quando nós fizemos essa gestão, de maneira forte, o Irã se irritou.
Eu também não condeno a ação americana. Nossa abordagem é diferente, mas acho até que talvez não seja mal que haja alguém falando mais e outro conversando. Porque é isso que permite muitas vezes conseguir certos resultados. E nós conseguimos, no caso da francesa [Clotilde Reiss, libertada por gestão de Lula], no caso dos baha'i, no caso do cineasta Jafar Pahani. No Pahani sei que a [atriz francesa] Juliette Binoche falou e deve ter tido muito mais influência. Eu também falei com o ministro [do Exterior iraniano]. Sei que ele foi libertado. Se você começar a entrar numa política condenatória, esquece o diálogo, você opta por ela.
Quer dizer que se o Brasil votar agora pela indicação do relator especial, talvez inviabilize um papel no lado nuclear?
Torna mais difícil, não só no lado nuclear, até no lado de direitos humanos. Você tem duas opções: ser aquele que conversa ou o que condena. Tem o que aplaude, que não é nosso caso. Ao contrário do que alguns dizem na imprensa, o Brasil nunca procurou parceria estratégica com o Irã. Procurou uma relação normal com um país grande. A versão de que o Brasil ficou amiguinho do Irã foi construída pela imprensa americana e a brasileira comprou.
Não posso julgar todas as motivações [para o governo brasileiro], entendo que a questão de direitos humanos é muito sensível para a presidenta, como aliás é para mim, não na medida dela porque não fui torturado, mas perdi meu trabalho na Embrafilme porque autorizei um filme que falava de tortura. Agora, como você obtém resultados é outra questão.
Também acho que a pergunta que foi feita a ela pelo "Washington Post" dava a impressão de que a resolução na qual o Brasil se absteve, no ano passado era sobre a Sakineh, mas não era. O Brasil tinha feito várias críticas e sugestões ao Irã no processo de revisão periódica do Conselho de Direitos Humanos. Agora, é uma escolha. Se você adota a postura da condenação, não dá para ter as duas ao mesmo tempo. Era o que queria ter a França, o Sarkozy. Bater, bater e depois dialogar. Não conseguiu. Precisou da gente para tirar a francesa de lá. Mas nenhum comentário meu deve ser interpretado como julgamento da atual política, porque eu não farei.
Mas o Brasil deve votar a favor do relator especial.
Eu não votaria com os elementos de informação que tenho. Não estou julgando, pode ser que tenham informações que eu não tenho. Quando você sai do poder, as fontes de informações secam. Eu me sinto muito bem representado pelo atual governo.
Mas há uma diferença de estilo entre o sr. e o chanceler Patriota. O estilo não é importante na diplomacia?
Queria fazer um comentário mais de análise política. O início do século 21 é o que está acontecendo no mundo árabe. E a Líbia não é o fundamental. É fundamental para julgar ONU, multilateralismo, uso da força. Mas o que vai ser determinante para o futuro do mundo árabe e para a geopolítica de região é o Egito. E ali o Brasil pode ser muito útil. Fui a Doha [capital do Qatar] e eles queriam saber como o Brasil pode ajudar no processo de transição. Tem dois aspectos interessantes e até aparentemente contraditórios.
Por um lado, o Egito já demonstrou que não vai ter a mesma linha do governo Mubarak quando deu passagem [pelo canal de Suez] aos dois navios [militares] iranianos. Acho que a atitude em relação à disputa entre [os grupos palestinos] Hamas e o Fatah será diferente. Por outro lado, o Egito, com seus 80 milhões de habitantes, numa área em que, tirando Israel, a única potência média é o Irã, será uma outra potência, com capacidade de influência. O Brasil pode ajudar na transição, se for chamado -- não pode ficar se oferecendo. Eu vejo análises que acentuam o aspecto da iniquidade social, da desigualdade como fator de instabilidade, o problema da relação entre militares e civis. Claro que as experiências não são idênticas nem nosso processo foi perfeito. 
Os EUA estão se esforçando para manter sua influência no Egito. A secretária de Estado Hillary Clinton esteve lá.
Eles querem um militar [no poder], é muito curioso.
Por isso falei em diferença de estilo. Patriota não daria essa resposta.
Mas ele é o ministro, não eu. O estilo pode fazer diferença para o bem e para o mal. Talvez seja para o bem. E também são momentos. Você tem momentos de desbravamento, momentos de consolidação. Tenho muita confiança no ministro Patriota, conheço-o bem, sei quais são as ideias dele e acho que, se não fosse assim, não o teria tido como assessor próximo durante 15 anos.
Odeio esse monte de colchetes que a Folha usa para "ensinar" o contexto. Infantilizam o leitor. Mais uma cópia da mídia americana, que paternaliza seus leitores ignorantes e isolacionistas! Tirei alguns. E juntei parágrafos, porque detesto esse formato de paragrafinhos de 3 linhas pra "facilitar" leitura. Também é estressante a tentativa forçar Amorim a "confessar" que o Patriota está à direita dele. Precisa? Tá na cara! Saco isso.

terça-feira, 22 de março de 2011

Celso Amorim bebeu desta água


Esta postejada gigantesca lembra as da bloga velha, mas achei necessária porque meu amado ex-chanceler Celso Amorim virou de repente o inventor da roda, ou seja, o criador da chamada política externa brasileira independente. Então é interessante lembrar de que água ele bebeu. Com limitações praticamente insuperáveis, em plena ditadura e em plena Guerra Fria posso dizer que tivemos um chanceler brilhante (há controvérsias, claro) chamado Antonio Francisco Azeredo da Silveira (1917-1999). Entre 1974 e 1979 (o ditador era Ernesto Geisel), ele seguiu o famoso “pragmatismo responsável”, pregou a não ingerência nos assuntos internos alheios e fincou o Brasil entre as nações não alinhadas (ou seja, não submissas aos Estados Unidos ou à União Soviética). Sim, há controvérsias! Mas era a única coisa na ditadura que não causava asco total.

Ah, dirão, é evidente que um chanceler da ditadura defenderia a não ingerência nos assuntos internos alheios, no mínimo para impedir a crítica externa à violação escandalosa aos direitos humanos no Brasil. Sim, mas... funcionou também no sentido oposto. E houve alguns lances diplomáticos de genuína audácia. Fora as ideias dele sobre os países e suas políticas, algumas incrivelmente atuais, outras muito engraçadas, outras bem preconceituosas... – ver as frases no pé deste texto, compiladas pela minha amiga Claudia Antunes.

Olhem só o que o próprio Amorim diz dele (Amorim na época trabalhava na OEA e no Itamaraty, ou seja, bebeu muito daquela água):

"Num momento muito difícil da história do Brasil, Silveira representa um resgate da ‘política externa independente’ que havia se firmado nos governos Jânio Quadros [1961] e João Goulart [1961-1964] e que foi abruptamente cortada quando houve o golpe militar. Não quero dizer que não tenha havido elementos importantes em outros ministros, por exemplo o próprio [Mário] Gibson Barbosa [1969-1974] fez um esboço de política africana que teve um mérito. Mas Silveira adotou uma linha política em que retomou em vários temas diretrizes que inspiraram a ‘política externa independente’, naturalmente adaptada ao momento e com as limitações do momento.

Por exemplo, houve o reconhecimento [da independência] de Angola, um fato lembrado até hoje por onde você passa. Foi uma obra que envolveu o embaixador Ovídio Melo [que chefiava a missão em Luanda], o embaixador Ítalo Zappa [então chefe do Departamento de África]. Houve o reconhecimento da República Popular da China, uma aproximação muito grande com os países árabes. (...) Silveira costumava dizer que o Brasil pode abdicar de tudo, menos da sua grandeza.”

Samuel Pinheiro Guimarães sobre Azeredo: “Na África, o Brasil abandonou o apoio ao colonialismo português, reconheceu a independência de Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau e assumiu posição contrária ao apartheid. Na Ásia, o Brasil encerrou longo período de apoio a Taiwan, estabeleceu relações diplomáticas com a República Popular da China e reconheceu o princípio de uma só China. O Brasil inaugurou um ciclo de cooperação com o Japão que resultou em grandes investimentos.

Na Europa, Geisel visitou França, Inglaterra e Alemanha, com a qual assinamos o acordo que deu início ao programa nuclear, com efetiva transferência de tecnologia. Diante das pressões americanas, contrárias à autonomia brasileira na área de informática e na área nuclear, o Brasil afirmou sua soberania, o que levou à denúncia do acordo militar Brasil-Estados Unidos.”

Esse material é de uma matéria/resenha da Claudia Antunes para a Folha de 14 de novembro de 2010, quando o CPDOC da Fundação Getúlio Vargas lançou o livro “Azeredo da Silveira, um depoimento”, organizado por Matias Spector a partir de entrevistas feitas com Azeredo entre 1979 e 1982 e arquivos pessoais. Mas tudo "permaneceu fechado para pesquisa durante anos”, até sua morte. Publiquei a íntegra do material da Claudia no Googledocs, aqui.


Mas o fato é que o próprio Antônio Patriota, nosso atual chanceler, bebeu dessa água: concluiu o Rio Branco em 1979, ou seja, vivenciou como aluno e futuro diplomata a gestão de Azeredo, que, queiram ou não, deixou legado.

Eis a apresentação do livro no site:
“Azeredo da Silveira reorientou a política externa do Brasil. Durante os cinco anos em que foi ministro das Relações Exteriores (1974-1979), o país assistiu a manobras ousadas nas relações com os Estados Unidos, Argentina, Portugal, Paraguai, Bolívia, África, Europa Ocidental e Oriente Médio. O Brasil também reconheceu a China comunista e participou ativamente do embate entre o Norte industrializado e o Sul em desenvolvimento.

Neste livro, Azeredo da Silveira fala pela primeira vez dos bastidores da política externa brasileira no apogeu do regime militar, caracteriza as principais crises do período e explica as decisões mais controversas.

O leitor também terá a oportunidade de aprender sobre a riqueza do pensamento de Azeredo da Silveira e seus dilemas mais recorrentes. Nestas páginas terá acesso à visão de mundo de um homem cuja passagem pelo poder deixou legados duradouros para a posição do Brasil nas relações internacionais. E saberá como e por que ele se tornou um dos mais poderosos e influentes diplomatas a ocupar a chancelaria na história do país.

A crença em que o sistema internacional, apesar de sua rigidez e assimetria, era maleável para um Brasil em franca ascensão é uma idéia recorrente e poderosa no pensamento de Azeredo da Silveira uma de suas marcas mais distintivas.”
Frases * Trechos do depoimento

Política externa

"Definir política externa como projeção do poder nacional era uma visão inventarial. Se essa visão fosse correta, se fôssemos comparar os recursos econômicos e militares do Brasil e dos EUA, não faríamos nada, sentaríamos na cadeira, cruzaríamos os braços e nos tornaríamos uma região totalmente dependente."

"A triangulação [com América do Sul, África e Japão] era a única maneira de a voz brasileira ser ouvida pelas superpotências."

"Se os EUA são um paquiderme no mundo e no sistema interamericano, a verdade é que existem alguns subpaquidermes. E o número um desses subpaquidermes, sem dúvida, é o Brasil. Não adianta a gente querer fazer uma política externa achando que o Brasil não tem um peso específico, um peso quase estático. Ele influencia mesmo sem agir."

"É difícil à beça explicar aqui que qualquer gesto é político do ponto de vista internacional. Tudo aqui é reduzido a uma dimensão de comércio. Isso é a maior besteira do mundo. O econômico vai vir, como veio na África, mas a catálise é política. Nenhum caixeiro-viajante teria feito em matéria de comércio o que se fez na África, se não tivesse havido essa catálise."

"Quando falo indígena brasileiro estou me referindo a essa forma de subdesenvolvimento mental. A gente tem direito de ser subdesenvolvido econômico, mas não mentalmente."

"Se há um país que está se universalizando e que não tem mais tamanho para ter parceria seletiva é o Brasil. O Brasil deve ter uma política exterior universal, sem a qual não terá nenhuma importância no mundo."

América do Sul

"Sempre procurei caracterizar a América do Sul, não porque ache que devamos abandonar uma política latino-americana, mas porque temos que ser verazes e realistas. Nosso continente é a América do Sul. Então, a plataforma de voo é aqui."

"Mostrei a ele [Geisel] como a posição do Brasil na América do Sul era desafiante, que nosso desafio era procurar ter programas de cooperação com todos os países e sermos equitativos. Poucos países no mundo têm dez vizinhos."

"O Brasil tem que ser pragmático na América do Sul. Não podemos ensinar a cada país a ser o que a gente é."

Argentina

"A posição da Argentina é uma posição ferida, ressentida pela grandeza do Brasil, esse país mestiço que eles chamaram no passado de ‘China negra’, em cujo desenvolvimento não acreditaram e que adquiriu uma dimensão enorme."

"A Argentina é um país muito mais meridional do que se pensa, muito mais fora das rotas do mundo. O brasileiro tem um certo complexo em relação à Argentina, gerado pelo fausto argentino precoce dentro da América Latina. Porém (...) me convenci de que se tratava muito mais de um subdsesenvolvimento próspero, como um segmento do Império Britânico (...), do que propriamente um desenvolvimento harmônico."

"Há uma inversão de expectativa na Argentina. É dramático para um país aceitar isso. É isso que torna a Argentina um país perigoso. A Argentina nunca estendeu a mão a seus vizinhos, no seu período mais opulento."

"Sabia que a negociação com os argentinos [sobre a hidrelétrica de Itaipu] era extremamente difícil porque se tratava de um país com inversão de expectativa."

"Disse várias vezes nos jornais que amizade com a Argentina valia um sacrifício. Disse essa frase com franqueza e firmeza. Realmente, a única coisa que justifica um acordo com a Argentina é o grau de relação, em vários outros setores, entre os dois países, porque o resto é fantasia argentina."

Paraguai

"O paraguaio detesta a Argentina. É tratado a pontapés em todas as questões comerciais menores. Eles deixam os produtos paraguaios apodrecerem como represália."

"Um país pequeno tem mesmo que jogar com a força dos países vizinhos que são mais fortes. Senão, onde ele vai ficar? Vai virar colônia? (...) Deus me livre que o Brasil faça isso! Seria o pior erro."

Bolívia

"Não há país mais difícil de negociar do que a Bolívia porque é um país extremamente índio, e de um índio que não participa totalmente da vida nacional, mas que já tem certas migrações para o meio político."

"A Bolívia tinha uma dependência total da Argentina. (...) Só o fato de o Brasil dizer que compraria [o gás] a preços internacionais permitiu o reajuste do preço da Bolívia com a Argentina. Eu acho que o Brasil deve sempre procurar comprar a preços internacionais porque fornecedores dependentes são muito variáveis e inconstantes."

África

"Nunca seríamos ouvidos pelos grandes centros de decisão se nossa posição não tivesse também algo de africano, porque é uma área afim à nossa e eles realmente eram nossos vizinhos – o Atlântico não nos dividia mais, ao contrário, nos unia."

"Era muito mais importante que o Brasil reconhecesse os governos e os movimentos de revolucionários de independência nesses territórios do que ter a pretensão de chegar por cima a amarrar por cima."

"O que sempre tentamos fazer foi entender as motivações dos países africanos. Aconteceu com a África o que aconteceu conosco no passado, quando o sujeito botava ‘Buenos Aires, Brasil’. Quer dizer, a incapacidade do opulento de compreender as motivações dos que não são opulentos."

"Os governos africanos estão se minando para a democracia (...). O lema africano fundamental é adquirir a independência pela força e criar de qualquer maneira, seja qual for o sacrifício, um país, um ser nacional. Em resumo: muito mais importante do que ter um regime formalmente democrático é ter uma posição de independência."

"Os regimes socialistas da África se criaram para os países poderem ser independentes. Eles vão voltar atrás. A África vai ter regimes mistos. Eles são muito pragmáticos."

"É, basicamente, mostrar que o Brasil está disposto a dividir suas experiências não só em saúde, educação etc., mas também tecnológicas com os países africanos. Não há outra maneira de entrar na África, e essa maneira é correta, solidária e é útil para eles."

"Nós, de caixeiro-viajante em punho, não teríamos jamais conquistado os mercados africanos. E a intenção não era essa."

China

"Se tivéssemos reconhecido a República Popular chinesa, que realmente representa o povo chinês – é uma piada dizer que Formosa [Taiwan] é que representa –, depois dos EUA, nossa iniciativa não teria expressão internacional. O Brasil passou a ser o país universal porque não tinha medo de reconhecer a China."

"O brasileiro ficou histericamente formosino, como se fosse haver uma operação cirúrgica que nos livraria de um aliado extraordinário. Nosso comércio com Formosa era relativamente importante, mas já foi inteiramente comido pelas proporções. E, além do mais, não há nenhum impedimento para que esse comércio continue. Isso é o que eu quis assegurar (...) para que houvesse uma valvulazinha de escape para o reacionarismo nacional."

Oriente Médio

"Não há dúvida de que eles [os palestinos] se transformaram nos párias do mundo. O que a ONU criou foram dois Estados. Nunca houve um voto brasileiro no sentido de criar exclusivamente o Estado de Israel. Isso é a maior blague que existe no mundo."

"O Terceiro Mundo votou massivamente contra Israel [na resolução que equiparou sionismo a racismo], mas nós éramos um país de não alinhamento automático. Não tínhamos nenhuma razão para seguir também cegamente esses votos. Acho que nossa posição tinha que ter sido de abstenção por uma razão muito simples: para não dividir a comunidade brasileira."

"O Brasil tem um compromisso com o Estado de Israel tal como foi criado, mas não como foi expandido, pela força."

Irã

"Eles [os EUA], em direitos humanos, erraram nisso, porque abriram exceções incríveis e tinham ilusões idiotas como a de que o Exército iraniano defenderia o xá. Então, armaram até as orelhas o Exército iraniano, esquecendo que o Exército era de gente muçulmana, igualzinho aos outros. Como ele ia defender o xá contra certas coisas básicas das posições muçulmanas?"

"Os EUA cometeram um erro enorme quando superarmaram o Irã. O Irã, hoje, vai ter uma influência enorme na OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e vai ser o Exército mais importante da área contra Israel."

Portugal

"Do ponto de vista econômico, Portugal nunca nos deu nada; nós é que sempre demos a Portugal. Mas isso não tem importância. Acho que está bem que a gente dê, mas tem que dar com independência."

Intuição

"A gente costuma dizer que as mulheres têm intuição porque escolhem um vestido vermelho ou um chapéu verde – isso é uma bobagem. O ser humano é intuitivo, tanto a mulher quanto o homem, e acho que a intuição é a capacidade de síntese."

Estados Unidos

Geisel (E) e Golbery (D),
Azeredo de costas (Veja)
"Ele [Geisel] era um homem muito orgulhoso da posição do Brasil. Ele sabe perfeitamente que não vou me atirar nos pés dos americanos, que vou colocar o nível de respeito que deve ter."

"Nenhum país, por mais forte que seja, nenhuma superpotência cria realidade externa. Influi, mas não cria. E cada vez cria menos porque a tal famosa geopolítica, cuja definição não pode ser outra que a utilização do espaço para fins estratégicos, muda não em função do espaço, mas em função da tecnologia."

"Eles [os americanos] nos mandaram um documento sobre a Rodésia [atual Zimbábue] e sobre a Namíbia. Era um documento infantil (...), cheio de raciocínios trilogísticos, que parecem certos. Mas eram uma história de mocinho e bandido."

"Tínhamos que brigar com os EUA e discordar deles em questões específicas. Não podíamos ficar na generalidade porque seria falta de eficácia. Isso é fácil para um país pequeno fazer, mas um país como o Brasil não pode ser subdesenvolvido mental."

"Acho até que esses jornais [JB e Estadão] não precisam ser comprados, mas têm uma dependência intelectual tão grande em relação aos EUA. Eles querem ensinar os americanos a ser ocidentais."

"Acho que a gente tem que ser amigo do americano na base do taco a taco, defendendo os interesses nacionais e sabendo distinguir as raríssimas vezes em que eles defendem o Ocidente das milhares de vezes em que defendem exclusivamente os interesses nacionais americanos."

"Acho que os EUA, em matéria de direitos humanos, têm uma política muito coerente com o sistema americano. O que não é um instrumento eficaz de política externa é passar além da exortação (...) porque isso acabaria desmoralizando os próprios direitos humanos. Os EUA têm interesses excessivos para ter uma política externa absolutamente idealista."

Kissinger

Azeredo e Kissinger (foto do livro)
"Ele é uma pessoa extremamente inteligente e com grande empatia pessoal. Tem a sensação exata de que não precisa de ninguém. É muito despojado de preconceitos, embora de vez em quando volte a eles, para ficar bem dentro da comunidade americana."

"Kissinger compreendeu que o “my dear Antonio” tinha seus limites, que ele não podia ser conquistado só com palavras."

Brzezinski

O [assessor de Segurança Nacional de Carter] teve uma conversa direta com Golbery [do Couto e Silva] numa noite e, segundo me foi contado depois, o grande desejo dele era transformar o Brasil na Cuba dos EUA: devíamos ir para a África lutar por eles. Ora, isso é uma bobagem sem limite."

Cuba

"O Brasil, dali por diante, teria uma voz moderada em relação a Cuba. Não porque não reconhecêssemos que Cuba insuflasse movimentos em vários países vizinhos. (...) Mas, para o Brasil, Cuba era um risco menor. Não tinha volume para ser um risco efetivo em relação ao Brasil."

França

"[Charles] De Gaulle talvez tenha sido o único europeu que equilibrou o desejo de enriquecimento material da Europa (que vendeu sua alma) com o desejo de conservar o mínimo de poder de equilíbrio na mão."

"Eu conhecia suficientemente os franceses para aceitar esse nome ridículo: Grande Comission [bilateral]. (...) Quando você pega um ator americano e o veste de Napoleão, ele fica todo mal-ajambrado. Mas quando você veste um ator francês de Napoleão, ele nunca mais tira o uniforme."

Rio Branco

[O barão do] Rio Branco [1845-1912] prestou um serviço enorme ao Brasil, mas a política externa tem que estar sempre atualizada. Dizer que se poderia seguir a política do Rio Branco, os zigue-zagues do Rio Branco, inclusive em relação à Argentina, sua descoberta dos EUA... isso não tem mais sentido."

Bomba

"Não é solução para os EUA nem para a União Soviética, por que seria para o Brasil? Aucastrar-se no seu poder regional? Ser um país que gera desconfiança? A maior burrice da Índia foi saber fazer a bomba e fazê-la. Devia saber fazer e calar a boca. O que a Índia conseguiu fazer, ao explodir a bomba, foi apenas pôr em dúvida o direito dos países em desenvolvimento à tecnologia nuclear."

Egito

"Ele [secretário de Estado americano Cyrus Vance] chegou aqui dois dias depois da visita de [Anwar] Sadat a Israel. Estava muito otimista, e eu lhe disse que estava menos. Ele me perguntou por quê. Respondi: ‘Vocês vão estirar tanto o Sadat, vão desgastá-lo tanto, vão ter tão pouca coragem de traduzir em atos concretos esse entusiasmo que vocês têm que ele vai virar um estranho para os árabes’."

Costa Rica

"Tudo em Costa Rica é perfeito, mas mesquinho. É um país em que tudo é feito num tom menor. Talvez por isso a democracia lá dê certo, no meio de todos aqueles países de governo tão difícil."

México

"Uma virtude que o México tem tido – pelo menos do ponto de vista declaratório e tolerado pelos EUA – são posições não reacionárias. Isso consegue equilibrar certas coisas dentro do país. Acho que este sistema [do PRI como partido único no poder] está terminando e que o México terá que enfrentar crises muito difíceis. Mas a verdade é que o México é um país extremamente dependente dos EUA."

Venezuela

"A Venezuela é, além do Brasil, o único país mulato na América do Sul. É muito parecido conosco racialmente, mas muito mais irreverente, muito mais cubano na irreverência."
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